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Transgênicos - Organismos Geneticamente Modificados


Em 15/05/2000

Folha de São Paulo, segunda-feira, 15 de maio de 2000 BIOTECNOLOGIA
Transgênicos atingem sociedades científicas
DA REPORTAGEM LOCAL
 
A Sociedade Brasileira de Genética colocou em seu site na Internet (http://www.sbg.org.br) um texto sobre as vantagens e desvantagens das plantas transgênicas.

O texto, de autoria de Antônio Cordeiro, professor do Departamento de Genética da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), tem por objetivo promover o debate entre os membros da entidade, que podem votar, aprovando-o ou não.

O Brasil sofre a pressão dos países europeus, que querem se livrar da dependência da soja norte-americana (50% da produção é de plantas geneticamente modificadas), para continuar produzindo soja não-transgênica. Resta saber se eles irão pagar mais pelo produto "diferenciado".

Este ano, a discussão tornou-se mais incisiva inclusive nos EUA, maior produtor mundial de culturas transgênicas. Em março, 2.500 pessoas se reuniram em Boston para protestar contra os alimentos transgênicos.

Segundo pesquisa do Departamento de Agricultura dos EUA, o país deverá reduzir a área de plantio de transgênicos em relação aos níveis do ano passado devido ao questionamento que esse tipo de alimento vem sofrendo.

Além de interesses comerciais, a polêmica existe devido ao desconhecimento dos riscos que os alimentos transgênicos podem trazer aos seres humanos e ao ambiente. (IG)


Folha de São Paulo, segunda-feira, 15 de maio de 2000 BIOTECNOLOGIA
Planta geneticamente alterada é imune a uma das principais moléstias e deve beneficiar pequenos produtores
 
Embrapa produz feijão resistente a vírus
ISABEL GERHARDT, DA REPORTAGEM LOCAL
 
Quem associa plantas geneticamente modificadas somente com resistência a herbicidas e ação de multinacionais deve rever os seus conceitos. A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) conseguiu produzir um feijão geneticamente modificado resistente ao vírus do mosaico dourado. O vírus é responsável pela perda de até 100% das plantas durante o cultivo.

"A agricultura familiar será a principal beneficiária da nova tecnologia, pois são os pequenos e médios produtores que plantam o feijão na época que há maior incidência da moléstia", disse à Folha Josias Corrêa de Faria, pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão.

Das doenças causadas por vírus, a do mosaico dourado é a principal doença do feijoeiro. Os sintomas são amarelecimento das folhas, nanismo das plantas e deformação das vagens.

Ela é transmitida pela mosca-branca e basta uma única picada para que o inseto infecte a planta com o vírus. Como é preciso acabar com a mosca antes que ela pique o feijão, o controle químico acaba não sendo eficiente.
"Em algumas regiões do Paraná e Minas Gerais, a única saída foi não plantar feijão", disse Francisco Aragão, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e um dos coordenadores da pesquisa junto com Josias Faria.

O projeto da Embrapa começou em 1992, tendo como objetivo a obtenção de plantas tolerantes ou imunes ao mosaico dourado do feijoeiro. Na natureza, não existem variedades que sejam imunes ao vírus. Foi preciso, então, obter um feijão transformado.

A primeira parte do projeto foi desenvolver um método para transformar o feijão. Essa etapa levou muitos anos, mas o resultado foi que o grupo da Embrapa tornou-se o primeiro no mundo a introduzir genes de interesse agronômico no feijão.

Senso do anti-senso

A primeira estratégia utilizada pelos pesquisadores da Embrapa para obter plantas de feijão transformadas resistentes ao vírus foi uma técnica chamada anti-senso.

O DNA de um gene serve de molde para a produção de RNA. RNA é a molécula mensageira que leva as informações do DNA que está protegido no núcleo para a "fábrica" de proteínas que est no citoplasma da célula.
Nesse processo, só uma das fitas do DNA -que tem uma fita complementar- é copiada em RNA, sendo sempre a mesma fita para um determinado gene.

Se um gene é modificado e inserido na planta de forma que a fita a ser copiada é a oposta, moléculas de RNA anti-senso, com sequência complementar ao RNA normal são produzidas. Aragão e Faria introduziram inicialmente no feijão o gene modificado que estava envolvido na multiplicação do vírus. Assim, a planta passou a produzir o RNA complementar que se ligava ao RNA do vírus, impedindo que ele levasse informações à "fábrica" de proteínas, evitando a multiplicação viral.

Apesar de obterem plantas que apresentavam sintomas muito fracos de infecção, os cientistas não ficaram satisfeitos com os resultados, pois queriam plantas sem vírus. Por isso decidiram tentar a estratégia que foi a responsável pela produção das plantas imunes: a transdominância letal.

Proteína "preguiçosa"

Nesse método, os pesquisadores transformaram o feijão com o gene defeituoso que codifica a proteína que copia o DNA do vírus- a DNA-polimerase. A função dessa proteína é se ligar ao DNA e copiá-lo. A planta passa, então, a produzir uma proteína "preguiçosa" que se liga ao DNA do vírus, mas não o copia, tomando o lugar da proteína natural do vírus e impedindo que ela faça o seu trabalho.

Com essa estratégia, foram obtidas três linhagens de plantas imunes, ou seja, sem os sintomas da doença e sem a presença do vírus. "Já estamos na terceira geração de plantas e todas elas não apresentaram sintomas", disse Aragão.

As linhagens de feijão imune já estão sendo introduzidas no programa de melhoramento convencional da Embrapa, como doadoras do gene de resistência.

Testar a segurança é necessário DA REPORTAGEM LOCAL

O feijão transgênico deve demorar ainda a chegar na mesa do brasileiro. O próximo passo da pesquisa será realizar testes em campo, pois as plantas ainda estão em casa de vegetação. É preciso ver se as plantas continuam sendo resistentes ao vírus e se não afetam o ambiente, em uma possível transmissão de seus genes modificados a outras plantas.

Os ensaios de segurança alimentar também precisam ser realizados. "Esses testes devem levar no mínimo quatro anos", explicou Aragão. O feijão transgênico só vira um produto se comprovado que ele não faz mal à saúde e nem ao ambiente.

Francisco Aragão considera que os resultados obtidos são um exemplo de continuidade de investimento na pesquisa.

"Normalmente há investimento para dois anos num projeto. Mas, em um trabalho como esse, dois anos não significam nada. Não se consegue gerar um produto nesse tempo", disse Aragão. Falta pouco para o projeto da Embrapa (iniciado em 1992) completar dez anos. (IG)


do "The New York Times" Folha de São Paulo, 14/05/2000
 
Salmões transgênicos no jantar
 
Governo norte-americano estuda a liberação da venda do primeiro animal geneticamente modificado, apesar dos protestos contra a nova tecnologia

Uma empresa de biotecnologia está a um passo de obter aprovação dos EUA para comercializar salmões geneticamente modificados. A liberação depende apenas da aprovação da FDA, agência que regula a entrada de alimentos e medicamentos no mercado do país. Caso isso aconteça, será a primeira vez que um animal transgênico estará disponível para consumo humano.

Os novos salmões são parecidos com os naturais, mas com uma diferença: seu ritmo de crescimento foi acelerado. A A/F Protein Inc., empresa que desenvolveu o novo salmão, declara que já tem encomendas para 15 milhões de ovos do animal a ser entregues no ano que vem, caso ocorra a liberação.

O novo salmão, criado em uma fazenda na ilha Prince Edward, no Canadá, foi desenvolvido pelos cientistas Choy Hew e Garth Fletcher após dez anos de pesquisa. Os pesquisadores retiraram de uma lampreia (peixe parente do salmão) os genes que estimulam a produção incessante de hormônios de crescimento e os inseriram no código genético do salmão. Como resultado, os peixes cresceram seis vezes mais rápido que o normal.
Os cientistas alegam não haver perigo para consumo humano, pois a quantidade normal de hormônios presente no salmão não foi alterada. A modificação apenas provocou a manutenção constante dessa quantidade. Normalmente, os salmões só produzem hormônios de crescimento durante os meses mais quentes do ano. Com a modificação, eles passaram a produzi-lo o ano todo.

"Na verdade, os níveis de hormônios de crescimento no peixe são tão baixos que a FDA não exigirá testes específicos para testar os possíveis efeitos tóxicos", disse John Matheson, um dos cientistas da equipe de avaliadores da FDA.

Ameaça ambiental

A grande preocupação não é com o consumo humano, e sim, ambiental. Salmões geralmente são criados em ambientes cercados por redes, no mar. Essas redes são frequentemente estragadas pelas ondas ou por animais famintos, permitindo que alguns peixes escapem. A possível fuga de salmões transgênicos para o mar poderá ser uma ameaça para a espécie original, dizem os especialistas.

A ameaça pode se concretizar caso a nova espécie seja mais eficiente para atrair outros peixes para a reprodução, reduzindo a população normal e aumentando a população "modificada". Elliot Entis, presidente da A/F Protein, admite que a companhia não fez os experimentos necessários para determinar se os peixes possuem vantagens reprodutivas sobre os naturais.

Os críticos temem que a FDA seja incapaz de avaliar o impacto ambiental do transgênico. "A FDA não está qualificada para avaliar os riscos ecológicos provocados por esse peixe modificado", disse Jane Rissler, cientista do Sindicato dos Cientistas Preocupados, grupo que critica o uso de biotecnologia.

Os consumidores também não estão satisfeitos. Na Escócia e na Nova Zelândia, esforços de desenvolver salmões com o código genético montado pela A/F Protein foram abandonados, após protestos contra os "Frankenpeixes".

Acompanhando o movimento, várias fazendas criadoras de salmão, motivadas pelo medo de rejeição ao produto, já declararam que não usarão peixes geneticamente elaborados, independentemente de aprovações governamentais.

A Associação Internacional de Criadores de Salmão, que representa a maioria dos criadores no mundo todo, já declarou sua oposição ao novo peixe.

Apesar de todas as declarações em oposição, Entis disse que "não há uma companhia de salmão no mundo que não tenha conversado conosco sigilosamente".


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