Mudanças climáticas podem fomentar crescimento de florestas tropicais

RIO - As florestas tropicais são frequentemente descritas como os “pulmões da Terra” por sua prodigiosa capacidade de inspirar dióxido de carbono (CO2) e exalar oxigênio. Assim, quanto mais rápido elas crescerem, mais poderão ajudar a combater o aquecimento global ao absorverem grandes quantidades de CO2, justamente o que é apontado como principal gás do efeito estufa emitido pela ação humana.

O problema é que não se sabe como elas reagirão às mudanças climáticas, com previsões de temperaturas mais altas e mais chuvas. Até agora, os cientistas acreditavam que a elevação nas precipitações iria como que “afogar” as plantas, atrapalhando significativamente seu crescimento. Mas um novo estudo que compilou e revisou dados de mais de 150 florestas localizadas nas regiões tropicais do planeta, entre os 23,5 graus de latitude Norte e Sul, colocou de pernas pro ar esta noção, indicando justamente o contrário.

— Nossos dados sugerem que, à medida que os padrões climáticos mudam nos trópicos, e alguns locais ficam mais úmidos e quentes, as florestas vão acelerar seu crescimento, o que é bom para remover carbono da atmosfera — diz Philip Taylor, cientista do Instituto de Pesquisas Árticas e Alpinas da Universidade do Colorado em Boulder, EUA, e líder do estudo, publicado recentemente no periódico científico “Ecology Letters”. — De certa forma, isso é uma boa notícia, pois podemos esperar uma maior absorção de CO2 nas regiões tropicais onde as precipitações deverão aumentar. Mas há muitas ressalvas.


Suposição posta em dúvida

Os ecologistas há tempos pensam que o crescimento das florestas tropicais segue uma curva em forma de “corcova” quando relacionada com as precipitações: até certo ponto, quanto mais chuva, maior o crescimento. Mas depois de algo como 2.400 milímetros em temporais por ano, achava-se que o excesso de água inundaria o ecossistema, freando a taxa de crescimento das florestas. Mas, enquanto trabalhava na selva da Península de Osa, na Costa Rica, Taylor começou a duvidar desta suposição.

— Aqui estávamos em um lugar onde chove 4.800 milímetros por ano e era uma das florestas mais produtivas e ricas em carbono da Terra. Isso claramente quebrou esta linha de raciocínio tradicional — lembra Taylor.

Intrigado, o pesquisador passou os quatro anos seguintes reunindo dados disponíveis na literatura científica e em outras fontes sobre a temperatura, precipitação, crescimento das árvores e composição do solo de mais de 150 florestas tropicais espalhadas por mais de 43 países, compilando o que Taylor acredita ser o maior banco de dados pantropical já produzido até agora.

Analisando as informações, Taylor e colegas descobriram que nas florestas tropicais mais “frias”, com temperaturas médias anuais abaixo de 20 graus Celsius, em geral localizadas em regiões montanhosas e que constituem apenas 5% do total dos biomas do tipo no planeta, o crescimento de fato seguia a curva em forma de “corcova”. Mas nas florestas mais “quentes”, que compõem a imensa maioria restante e incluem biomas como a Amazônia brasileira, a Mata Atlântica e o Cerrado, isso não acontecia.

— O modelo antigo (da resposta às chuvas) foi montado com uma falta de dados sobre as florestas tropicais mais quentes — conta Taylor. — Nas florestas tropicais que realizam a grande maioria da “respiração” do planeta a situação é invertida. No lugar de a água (em excesso das chuvas) frear o crescimento, ela na verdade o acelera.

Taylor, porém, alerta que isto não significa que as mudanças climáticas não terão um impacto negativo nas florestas tropicais. No curto prazo, mostra a pesquisa, as duas grandes secas na Bacia Amazônica registradas nos anos de já levaram a uma morte disseminada de plantas e a uma queda de 30% na acumulação de carbono só na última década.

— Muito das mudanças climáticas está acontecendo em um ritmo bem mais rápido do que nosso estudo contempla — destaca o cientista. — Nossa pesquisa diz o que podemos esperar das florestas em períodos de centenas de anos.

Impacto difícil de ser calculado

Além disso, como o ciclo de carbono da Terra é muito complexo, com as florestas também liberando o elemento na atmosfera à medida que as plantas morrem, ainda é impossível dizer qual será o impacto líquido que o clima mais úmido poderá ter na capacidade das selvas em “sequestrar” carbono, ressalta Alan Townsend, professor de estudos ambientais da universidade americana e autor sênior do estudo

— As implicações das mudanças (climáticas) ainda precisam ser mais bem entendidas, mas o que podemos dizer é que as florestas respondem às alterações na precipitação de forma bem diferente do que tem sido a pressuposta há muito tempo — resume Townsend.

Assim, pensando mais à frente, ambos autores esperam que suas descobertas levem a uma revisão das premissas usadas por outros cientistas e mesmo educadores.

— Nossos achados mudam fundamentalmente a visão sobre o ciclo de carbono das florestas que há anos tem sido publicada em livros e incorporada nos modelos sobre o futuro das mudanças climáticas — conclui Taylor. — Diante de como estas florestas são importantes para o clima, esta nova relação precisa fazer parte das futuras avaliações sobre o clima também.

Fonte:O Globo em 01-05-2017 por  


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