RORAIMA: SUSPEITA DE BIOPIRATARIA É AVERIGUADA

Os estudantes de Biologia Ryo Yamanishi, 20, e Yuji Nakano, 29 - japoneses aparentemente insuspeitos - tentavam embarcar nesta terça-feira (29) pela agência dos Correios Central de Boa Vista (RR), via sedex, três caixas contendo sementes de espécies vegetais que compõem a biodiversidade amazônica.

O destinatário: um suposto colecionador, residente na cidade de Okinawa, no Japão, que eles identificaram como Kazakami Takeshi.

Alertada pela reportagem da Folha para a possibilidade de prática de biopirataria, a direção da agência dos Correios resolveu reter a "mercadoria" para que seja examinada pelo Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis).

"Vamos consultar os órgãos federais para sabermos os procedimentos a serem adotados", disse o gerente da agência Sebastião Postilho, que está no cargo ! há seis meses. Oriundo do Estado do Amazonas, ele disse considerar estranho o volume de sementes postado pelos japoneses.

As sementes, segundo contou Ryo Yamanishi, vieram de Manaus (AM), compradas de nativos. As mais exóticas custaram até R$ 40,00. Entre os tipos embalados para serem postadas, haviam sementes de sapucaia e jatobá. Questionados pela documentação liberando a remessa das sementes para o exterior, Yamanishi disse que não a possuía e que a falta da autorização não era problema.

Quando a Folha chegou aos correios, Yamanishi cuidava do acondicionamento das sementes em caixas de papelão. Num ritmo frenético, ele embalava o produto em papel jornal para depois acomodá-lo nas caixas. Em cada uma das embalagens as sementes eram cuidadosamente descritas em idioma japonês.

Depois de feita a postagem - a da caixa maior, com cerca de 10 quilos e custou R$ 175,00 - Yamanishi e Yuji Nakano deixaram a agência dos Correios e tomaram um táxi-lotação, com destino ign! orado.

Antes, uma mulher, que assistia a tudo a certa distância e que não quis se identificar, conversou com os dois, perguntando se tinha dado tudo certo. Com a afirmação positiva, despediram-se e foram embora.

CORREIOS

Consultados pela Folha, os funcionários dos Correios que faziam a recepção da mercadoria nos guichês, admitiram desconfiar de contrabando de biodiversidade (biopirataria), mas, como não havia nenhuma recomendação da Delegacia Federal de Agricultura (DAF), órgão do Ministério da Agricultura ou do Ibama, mandando fiscalizar esse tipo de postagem, receberam a mercadoria normalmente.

A direção da agência dos Correios demonstrou surpresa ao ser informada pela Folha da operação feita por Yamanishi e Nakano. O chefe da agência, Sebastião Postilho, resolveu reter as caixas com as sementes para pedir que seja feita uma análise do material pelo Ibama ainda hoje. Os responsáveis pela postagem das sementes serão convocados para prestar esclarec! imentos sobre a origem e o destino das sementes.

"Só vamos liberar a saída desse material daqui do Estado, quando tivermos a certeza de que não há nenhuma ilegalidade no envio dessas sementes. A princípio - e pelo volume - parece algo destinado ao comércio", comentou Postilho.

Ele disse, no entanto, não haver uma fiscalização rígida para evitar o embarque de sementes, porque os órgãos federais - DAF e Ibama - nunca enviaram nenhuma recomendação aos Correios para procederem dessa forma.

A Folha também procurou a DAF para saber da legalidade da remessa de sementes de plantas nativas da região para o exterior sem autorização. O corpo técnico do órgão disse que em muitos casos se faz necessário que o remetente das sementes tenha registro do Ministério da Agricultura, para que retire a certificação do material a ser remetido. "Não tendo certificação está irregular", afirmou o delegado da DAF Anastácio Levimar.

Eles alegaram ser difícil fiscalizar esse tipo de ação no Estado, devido à falta de um colis-posteaux (departamento responsável pela triagem de produtos para saber da legalidade da sua transferência de um lugar para outro). "A rigor, qualquer semente para sair do país precisaria passar pelo menos por uma fiscalização fitossanitária para não comprometer o país destino", observou.

fonte:Folha de Boa Vista em 07/2003

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