Madeira certificada e lucrativa


Os pequenos produtores de madeira ganharam uma oportunidade para ampliar as exportações para a Europa e o continente asiático. Isso porque 20 empresas agroflorestais do Rio Grande do Sul irão receber a certificação internacional, fruto de uma parceria com o grupo Madeze e Marosol, que hoje tem negócios com China, França, Espanha e Portugal.

A intenção é aumentar a exportação de produtos por um valor que agrade mais a categoria. De acordo com Jorge Farias, executivo do grupo, a commodity está sendo comercializada a aproximadamente U$ 210,00 o metro cúbico para os chineses, por exemplo, produzirem mesas ou tampas de mesa a um valor muito maior. "Com a certificação dos pequenos produtores, o nosso e o lucro deles crescerá até 15 vezes", destaca.

No Brasil, 19% do Produto Interno Bruto (PIB) é de responsabilidade da cadeia produtiva da madeira, que inclui, além da extração, produtos como madeira e móveis. No Rio Grande do Sul, o número cai para 4%. Mesmo sabendo disso, empreendedores ainda têm dificuldade de investir nesta área, justamente por ser pouco valorizada.

O reconhecimento do Conselho de Manejo Florestal, órgão internacional que regulamenta a matéria-prima, abre a porta para que produtores possam oferecer outros produtos além da madeira serrada. Algumas empresas geradoras de energia elétrica, explica Farias, já estão utilizando a resina das podas. "Da madeira se aproveita tudo, inclusive a resina, que pode ser transformada em energia elétrica", afirma.

Com a certificação internacional, o lucro pode ser até 15 vezes maior para o produtor, pois, uma vez certificado, o pequeno empresário poderá fornecer o material para compradores que não encomendavam os produtos por falta de procedência. Para adquirir este documento, o investimento inicial parte de R$ 15 mil, um valor significativo para um pequeno produtor, mas que, com a certificação compartilhada, vai se reduzir para R$ 750,00.

A alíquota do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do Rio Grande do Sul  encarece o produto e diminui a competitividade quando comparado a outras regiões, como as de Santa Catarina e Paraná. "A capacidade de empreender e, consequentemente, de investir no setor é afetada, por exemplo, por taxas de impostos que influenciam direto na logística de transporte", conclui.

A capacitação dos produtores é apontada como requisito essencial para o crescimento do setor. Por isso, a Federação dos Trabalhadores de Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS) está auxiliando pequenos cultivadores a conquistarem a certificação. Em parceria com a  Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) e com a Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Rio Grande do Sul (Sema), a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) começou a selecionar produtores para o programa que deve financiar a documentação dessas áreas desde maio. A intenção é fazer com que essa documentação desperte a confiança de investidores. Para conquistá-la, o interessado deve fazer a inscrição de suas áreas florestadas junto à Sema. 

Responsável pelo setor de certificação da Fetag, Nestor Bonfanti, explica que alguns pequenos agricultores acabaram migrando para a produção de grãos por considerarem desvantajoso o plantio de madeira sem certificação.  Isso porque as propriedades não certificadas ficam impossibilitadas, pela Fepam, de realizar o corte e, consequentemente, comercializar o produto. Bonfanti ressalta que essa questão pode ser facilmente resolvida. "Só não há mais produtores regulamentados porque falta a comunicação da importância desses documentos", analisa, ao comentar que eventos têm sido realizados para levar as informações aos agricultores.

Produtor agroflorestal desde os 14 anos de idade, Daniel Ferreira, natural de Brochier, na Zona Central do Rio Grande do Sul, conta que seu primeiro contato com a madeira de lei foi em Santa Catarina. Pela pouca valorização da matéria-prima, ele optou por trabalhar em outras áreas. Para isso, abriu uma metalúrgica especializada em materiais inoxidáveis para a indústria alimentícia. O produtor voltou a investir no setor quando sentiu que a qualificação agregada seria transformada em lucro.

"Quando começaram a aumentar a qualidade do sistema de plantio e manejo de terras, vi que ali tinha a oportunidade de ampliar meus ganhos", explica Ferreira.

Para a fazer o cultivo e também como forma de escapar de problemas ambientais, o produtor preferiu comprar áreas que pudessem ser revitalizadas com o plantio de eucalipto e pinos.

Além disso, optou por seguir à risca as normas da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) de não utilizar agrotóxicos nas lavouras. "Sempre acreditei que a preservação também nos ajuda, então resolvi não utilizar defensivos", explica.

Quanto à certificação compartilhada, Ferreira acreditava que não tinha significado algum para a produção de eucalipto. Mas essa ideia mudou após palestras feitas pela Madeze junto aos cultivadores. Ele acredita que essas regulamentações deverá valorizar até 20%. "O mercado europeu faz grandes pedidos de madeira, mas para vender é preciso documentos", comenta.


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