Caqui orgânico do Rio: agora com sabor de resistência


A produção orgânica e natural de caquis da Região Metropolitana do Rio de Janeiro concentra-se no entorno do Parque Estadual da Pedra Branca, Zona Oeste da cidade, com cerca de 40 hectares de plantação – segundo dados da Produção Agrícola Municipal de 2012 do IBGE. Na localidade do Rio da Prata, em Campo Grande, são mais de 20 mil pés do caquizeiro da espécie Rama Forte. Há também o cultivo da espécie mikado no Sítio da Pedra Branca, Vargem Grande e em Pau da Fome, Jacarepaguá. A fruta, de origem asiática, foi adaptada ao ambiente agroflorestal característico daquele sistema agroalimentar.

Há sete anos, o feriado de Tiradentes é a data escolhida para celebrar o auge da safra do caqui na região. O Tira-caqui é uma colheita solidária feita por agricultoras, agricultores e integrantes da Rede Carioca de Agricultura Urbana (RedeCau) e a Rede Ecológica. O evento é aberto ao público e marca o calendário anual agrícola da cidade desde 2011.

O Tira-caqui busca dar visibilidade à agricultura tradicional da cidade, que resiste secularmente, produzindo alimento limpo e carbono zero para os cariocas. Também neste período de alta da safra os agricultores esperam combater o desperdício da fruta. A ausência de mão de obra; o envelhecimento da população; o preço baixo do caqui do agronegócio; o alto custo, ou ausência de logística adaptada à situação fazem com que o carioca deixe de ter acesso a esse alimento limpo, sem agrotóxico e sem injustiças sociais ou ambientais

A colheita solidária do caqui é uma inovação social ligada à soberania e segurança alimentar, criada para enfrentar as limitações postas por um sistema alimentar industrial em que as etapas de produção, fabricação e distribuição em larga escala restringem a entrada de outros modelos de produção agrícola. O evento é uma oportunidade para cidadãs e cidadãos conhecerem os sabores tradicionais de sua cidade, bem como outras maneiras de produzir alimentos sem veneno na zona urbana e os desafios enfrentados para manter esse modelo de agricultura.

Nesta edição, as redes organizadoras do evento lançaram a Força Tarefa Caqui Daqui para avançar além da colheita. Silvia Baptista, membro da Associação de Agricultores Orgânicos de Vargem Grande (Agrovargem), destaca que o foco passou a ser o ciclo produtivo da fruta. “Pensar desde o manejo dos caquizais até a mesa do carioca, passando por comunicação interna e externa, logística e autonomia dos agricultores e das agricultoras que tipifica a agroecologia”, são as estratégias a serem desenvolvidas, conforme explica Silvia.

A Força Tarefa conta com a adesão da Instituto Maniva e da Malagueta Comunicação. Há dois anos o Maniva, presidido pela chef Teresa Corção, pesquisa receitas e produtos derivados do caqui no Rio da Prata, elaborando ações coordenadas entre o mercado da ecogastronomia e a agricultura local. A Malagueta atua com comunicação especializada em gastronomia há 10 anos. “As duas parcerias que chegam podem contribuir para resolver algumas lacunas do conhecimento em relação ao caqui agroflorestal da Pedra Branca”, afirma Silvia.

 

No 21 de abril, o Tira-caqui rolou das 9h às 15h na Associação de Moradores em Vargem Grande. O dia começou com um café da manhã colaborativo, inspirado no caqui. A abertura do evento teve a participação da Juventude Carioca de Agroecologia e, a partir das 9h, tiveram início as oficinas e também a colheita nos caquizais. Depois da colheita foi servido o almoço, seguido de rodas de conversa. Os participantes, com exceção de crianças, adolescentes e jovens, colaboraram com R$ 20.

O mês do caqui da Pedra Branca

Uma rede de conhecimentos, saberes e práticas está sendo tecida para que alimentos agroecológicos, como o caqui, façam parte do dia a dia do carioca, contribuindo para fortalecer os vínculos sociais, culturais e econômicos com o lugar de produção e consumo.

Para combater o desperdício da fruta, cujas sobras são destinadas ao consumo animal para evitar ser jogadas no lixo, a criatividade tem se concentrado nas possibilidades de processamento do caqui com o preparo de doces, geleias e licores. Várias receitas têm sido experimentadas por ecochefs e culinaristas da agroecologia. Alguns processados já são conhecidos e distribuídos há anos, como o vinagre de caqui. Outros estão começando agora, como o gelado de caqui e a compota de caqui à frio, receita da ecochef Teresa Corção.

A Força Tarefa está pensando estrategicamente os desafios para que o alimento agroecológico tenha um preço justo, considerando o transporte feito por tração animal; o transporte e a logística, com as estufas de maturação, o armazenamento e as cozinhas de beneficiamento. Os canais de distribuição, com a atuação dos Ecochefs do Instituto Maniva, do Comida da Gente, e das paróquias de Campo Grande. No campo da comunicação, os alunos de cursos de pós-graduação em Jornalismo Gastronômico propuseram uma ação comunicativa Comunicaqui, que busca caminhos para dar visibilidade na imprensa especializada em gastronomia para a pauta que trata sobre o acesso a alimento agroecológico na cidade do Rio de Janeiro.

Neste ano, as redes que organizam o Tira-Caqui iniciaram um processo de pequenas colheitas, com finalidade pedagógica. A finalidade é identificar os espaços de aprendizado e melhorar efetivamente a colheita. O Centro de Educação Multicultural (CEM) participou de duas colheitas com o agricultor Jorge Cardia, e a juventude agroecológica ligada à Fundação Xuxa Meneghel fez uma colheita. As reflexões e colaborações foram apresentadas no dia 21 de abril.

Fonte: Outras palavras em 25-04-2017 por Juliana Dias.

 



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