CAATINGA
Mata ciliar tem uso medicinal

Estudo realizado pela UFRPE mostra que 14 das 23 espécies de árvores inventariadas nas margens dos rios são empregadas em chás e lambedores

VERÔNICA FALCÃO

A população sertaneja faz uso medicinal de mais da metade das espécies de árvores características da mata ciliar da caatinga, revela pesquisa da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). A mata ciliar é aquela que reveste as margens de rios e riachos.

De acordo com o levantamento, que registrou 23 tipos de árvores, 14 são utilizadas pelos moradores do Semi-Árido para fazer chás e xaropes, mais conhecidos na região como lambedores.

A casca é a parte mais utilizada das plantas lenhosas, conforme constatou o engenheiro florestal da UFRPE José Serafim Ferraz. A extração da casca, entretanto, pode acarretar na morte da árvore, por afetar o sistema condutor de seiva.

Ele fez o levantamento, entre 2003 e 2004, para a dissertação de mestrado em Ciência Florestal pela UFRPE. “Os resultados mostram que a mata ciliar é importante não apenas para proteger as margens dos cursos d’água, evitando a erosão, mas também para a saúde da população”, diz o pesquisador.

O levantamento se baseou em pesquisas de campo, para a identificação das espécies lenhosas características da mata ciliar da caatinga, e de entrevistas com os moradores da região, que forneceram as informações sobre os usos das plantas. Esse tipo de trabalho, que leva em conta os dados fornecidos pela população local, é chamado de etnobotânica.

Nas entrevistas, os moradores citaram o uso de 22 espécies da região empregadas no preparo de remédios (veja quadros ao lado). Oito delas, no entanto, não fazem parte do inventário botânico realizado por José Serafim. Das 22, 21 (95,45%) tiveram a casca ou entrecasca como a parte da planta utilizada para fins medicinais. De três são usadas as sementes e de duas, os frutos. Apenas uma tem nas folhas a parte empregada nos medicamentos e outra, na flor.

O engenheiro florestal estudou a mata ciliar ao longo do Riacho do Navio, o mesmo que inspirou os compositores Luiz Gonzaga (1912-1989) e Zé Dantas (1921-1962) a criarem uma canção que leva o mesmo nome. O levantamento se concentrou em 70 quilômetros do curso d’água, entre a barragem Barra do Juá à desembocadura, no Rio Pajeú.

O Riacho do Navio percorre ao todo 140 quilômetros, desde a nascente, em Betânia, até o Pajeú, do qual é o principal afluente. Dezesseis rezadeiras e curandeiros que moram nas margens do riacho, sugeridos pela própria comunidade, foram as fontes de informação de José Serafim. “Eles são terapeutas que prescrevem remédio para quase todas as doenças, de gripe a picada de cobra”, conta o engenheiro florestal.

Durante o levantamento, o pesquisador percebeu o desinteresse da população mais jovem pelo conhecimento medicinal popular. “Os mais novos querem tentar a vida na cidade ou simplesmente não têm interesse na tradição oral da região”, lembra.

Diante da constatação, e como forma de agradecer as informações prestadas pelos curandeiros, José Serafim elaborou uma cartilha de literatura de cordel. A publicação, com tiragem de 400 exemplares, aborda as árvores da ribeira do Riacho do Navio. Ribeira é o nome dado pelos sertanejos às margens dos rios.

CAATINGA II
Vegetação ajuda a preservar o solo

Além de abrigar as plantas de uso medicinal do Sertão, a mata que margeia os rios e riachos da região ajuda a reter os sedimentos, evitando o assoreamento dos cursos d’água. Entre as espécies da mata ciliar da caatinga, algumas das mais comuns são o juazeiro e o ingazeiro.

“A floresta ajuda a reter os nutrientes do solo e a manter o habitat para a conservação e regeneração das espécies, além de proteger as margens de usos indevidos”, explica Isabelle Meunier, professora do departamento de Ciência Florestal da UFRPE e orientadora de mestrado do engenheiro florestal José Serafim Ferraz.

Segundo Isabelle, sem as matas ciliares, ocorre o aumento da erosão, a perda da camada biologicamente ativa do solo, além do aumento da freqüência e das cotas atingidas pelas inundações.

Ela explica que a vegetação constitui o fator mais importante no controle da erosão porque estabelece uma barreira física ao transporte de material. “A mata ciliar proporciona estrutura mais sólida ao solo, amortece o impacto das águas de chuva e eleva a porosidade, mantendo a capacidade de absorção do solo.”

Outra função da vegetação que reveste as margens dos rios e riachos é proteger os aqüíferos e a drenagem das águas e evitar a ocupação da área de inundação. “Assim, os terrenos situados nas margens do corpo d’água (área de inundação) não devem ser ocupados, permanecendo com vegetação natural.”

As demais áreas da planície de inundação devem ter usos que resultem em baixas taxas de ocupação, como parques e áreas para prática esportiva, segundo recomendação da pesquisadora. A mata ciliar, lembra Isabelle, é área de preservação permanente, segundo o Código Florestal, de 1965, e não pode ser desmatada.

Fonte: Jornal do Commercio, em 28/11/05

 

 

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