Celulose na era dos econegócios

Quando o imigrante ucraniano Leon Feffer e o químico Benjamim Solitrenick revolucionaram a fabricação da celulose no mundo, com a descoberta do potencial da fibra curta do eucalipto, por meio de pesquisas realizadas na Universidade da Flórida, no início da década de 50, iniciou uma nova era para os negócios das florestas plantadas do Brasil.

Com a maior área de plantio de eucalipto do mundo, 1,7 milhão de hectares, a indústria brasileira de celulose gera hoje cerca de 100 mil empregos diretos, milhares de indiretos e R$ 2,1 bilhões de impostos, numa cadeia produtiva que abrange 450 municípios de 16 Estados.

Quarenta anos depois, o industrial suíço Stephan Schmidheiny fundou o respeitado World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), reunindo um grupo de empresários internacionais que, focados na sustentabilidade dos seus negócios e do planeta, tiveram participação ativa na Eco-92. Fatos aparentemente distantes no tempo e no espaço se entrelaçam teando as regras inexoráveis da sustentabilidade.

Articulados com Schmidheiny, 50 líderes empresariais transnacionais lançaram mundialmente, em 1992, o livro Changing Course: A Global Business Perspective on Development and the Environment, com estudos de casos de negócios de última geração - econegócios - que começam a afetar o mundo, gerando lucro social, econômico e ecológico de forma integrada, dentre eles os das florestas.

Com previsões de crescimento na exportação de 10% em 2007, a produção de celulose no Brasil cresceu de 95 mil toneladas, em 1950, para 11 milhões de toneladas, em 2005. Ainda imantada pela genialidade de Feffer, a indústria envereda em esforços sem rumo para adaptar-se ao ambiente do desenvolvimento sustentável. Proteção de mananciais, combate a incêndio, revegetação e cultivo mínimo são obrigações minimamente esperadas da indústria florestal monoculturista.

A mesma inteligência empresarial usada para gerar lucros das fibras pode ser usada para os bionegócios nas áreas de preservação. A próxima geração de empresários, influenciada pelos mesmos motivos que moveram Schmidheiny, sem descuidar da celulose, focará no complexo da biodiversidade florestal, composto pela floresta plantada, floresta preservada, fixação de populações humanas e marcas das empresas.

Esses são valores emergentes no mercado da eco-economia, interessado em comprar serviços de preservação, na qualidade de vidas humanas e também nos negócios da celulose.

Quanto pode valer a marca de uma sustentável indústria de celulose na era da eco-economia?

Na era dos econegócios adicionalidades dão lucro. Hoje, a inteligência embutida nas marcas é instantaneamente percebida pelos softwares que alimentam de informações os mercados. Dissolvidos nos produtos, os valores embutidos nas marcas conversam com clientes cada vez mais conscientizados e regulados por normas ambientais que crescem com a mesma velocidade das fibras de eucalipto em ambiente tropical.

Novos investidores estão particularmente preocupados com a moeda escassa da biodiversidade, economicamente valorada, e nos bionegócios do patrimônio esquecido nos 2 milhões de hectares de florestas (bancos de germoplasma) preservadas. Chamadas apenas de "matas", são, na verdade, ricas biofábricas, precariamente inscritas nos balanços como custo, registrando a visão dos executivos da velha-guarda.

O cruzamento de biodiversidade e biotecnologia gera bionegócio. Fungos, fármacos e cosméticos podem ser produzidos nas biofábricas preservadas. Negócios estranhos à celulose? Não. Esses princípios ativos abundam nos 20 bilhões de m² de "matas" de propriedade da indústria.

O fomento cego, hoje feito sem estímulo à bioprospecção nas áreas de reserva legal, transformado em Termos de Ajustes de Econegócios (Tecos), poderá ser uma valiosa ferramenta para consolidação dos corredores ecológicos.

Na era dos econegócios a noção de biofábrica substituirá a de área preservada. Investimentos na geração de conhecimentos ajudarão a capacitar o grande empresário e o pequeno proprietário rural para a exploração sustentável das suas reservas legais, transformando preservação em PIB.

Com a ajuda da inovação, o Brasil, "destravado", terá oportunidade de preservar os ativos ambientais, via econegócios, para mitigar o passivo social, este, sim, um problema gritante em todo o País.
Eduardo Athayde é diretor do WWI-Worldwatch Institute no Brasil (www.wwiuma.org.br). E-mail: [email protected]

Fonte: O Estado de São Paulo em 13 de janeiro de 2007

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