Caruari - O grande dilema da Amazônia brasileira

Optar entre o desenvolvimento predatório ou o sustentável - parece mais agudo às margens do rio Juruá. A história das comunidades ribeirinhas e cidades deste rio tortuoso, quase um labirinto de lagos e "furos", é marcada pelo extrativismo e suas crises cíclicas, características de economias fracas, sem planejamento nem inovações tecnológicas, dominadas por grandes proprietários.

Em Caruari, como na maioria das regiões puramente extrativistas, quando os produtos da floresta vão bem, o desenvolvimento parece sustentável e a preservação ambiental é uma opção tranquila. Quando ano há mercado para os produtos da floresta, atividades predatórias tomam rapidamente o lugar do extrativismo na economia local e a sobrevivência da floresta é ameaçada.

Para quebrar esse círculo vicioso, surge aos poucos um novo modelo, defendido pelos ativistas do Greenpeace, em parceria com a Universidade de Brasília, UnB, e com a Associação de Produtores de Carauari, Asproc. Eles querem romper o velho esquema, agregando valor ao extrativismo, a partir de novas tecnologias, capazes de reduzir as flutuações de mercado dos produtos florestais. A primeira delas está pronta para conquistar nichos técnicos no mercado da borracha. Trata-se de uma tecnologia para beneficiamento da seringa, batizada de Tecbor, capaz de melhorar a qualidade da borracha nativa e eliminar intermediários, conferindo sustentabilidade econômica a uma atividade já sustentável, do ponto de vista ecológico.

Com a Tecbor, desenvolvida pelo químico Floriano Pastore Júnior, da UnB, os seringueiros podem montar mini fábricas familiares de processamento da borracha, na qual trabalham também as mulheres e jovens da família do seringueiro. As folhas de borracha de alta qualidade produzidas podem ser utilizadas como mouse pads de computadores. "Estamos em busca de compradores para estes mouse pads de computadores, sobretudo no exterior, com o apelo de um produto ecologicamente correto", conta Ruy de Góes, do Greenpeace. No Brasil, pelo menos uma indústria automobilística já se interessou pelo produto, ideal para revestimento interno de amortecedores.

A renovação ainda deve continuar. A equipe de Pastore na universidade trabalha em tecnologias de produção do ácido pirolenhoso, utilizado no tratamento da borracha, para possibilitar sua fabricação em Carauari e eliminar a importação da Bahia. E a mesma equipe pesquisa ainda métodos de vulcanização da borracha para diversificar a produção local e criar um segundo setor na região.

Não é só. A Universidade do Amazonas também trabalha com a inovação tecnológica no processamento de um outro produto florestal bastante comum: a andiroba, semente de uma árvores da qual se extrai óleo cosmético. A semente é colhida no chão, cozida num tacho e exposta ao sol, com a participação de toda a família no processo. "A vantagem é que a seringa se tira no verão, de julho a dezembro, enquanto a andiroba dá no inverno, de janeiro a março", explica Ademar da Silva Cruz, da Asproc. Assim, as duas atividades são complementares e podem garantir certa estabilidade econômica ao extrativista.

Informações: ASPROC - Associação dos Produtores de Caruari, no Médio Juruá, AM. Email: [email protected]

Fonte: www.estadao.com.br/ciencia (por Liana John)

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