Abelhas sem ferrão nativas do Brasil ajudam agricultura e mata amazônica

Ana Lucia Azevedo

Perseguidas e injustiçadas, as abelhas sem ferrão começam a ter seu valor reconhecido e a recompensar com lucros e comida seus protetores. Uma cruzada pela salvação desses insetos ameaçados de extinção e dos quais o Brasil é o maior abrigo no mundo está em curso no Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), em Manaus.

À frente do trabalho, está o diretor do Inpa e um dos maiores geneticistas do país, Warwick Kerr, que luta para convencer apicultores a adotarem em seus apiários as espécies brasileiras.

 O Brasil é a pátria das abelhas sem ferrão. Precisamos delas para manter a produtividade de nossas plantações e a fertilidade de nossas florestas. Ao visitar as plantas em busca de pólen, elas polinizam numerosas espécies. O problema é que o Brasil ignora isso  diz Kerr, que acaba de publicar um estudo sobre elas intitulado

Aspectos pouco mencionados da biodiversidade amazônica.

Abelhas polinizam macieiras e ameixeiras

A FAO, a Organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura, estima que as abelhas de forma geral sejam responsáveis pela polinização de 38% das plantas do mundo. O desaparecimento desses insetos já causa um prejuízo da ordem de US$ 65 bilhões anuais. Não há números específicos sobre as abelhas sem ferrão brasileiras, mas sabe-se que elas polinizam muitas espécies da Amazônia, como camu-camu (a fruta mais rica do mundo em vitamina C) e araçá, e introduzidas, das quais brócolis, couve, repolho, chuchu, pêssego, maçã e ameixa são exemplos.

 Na Amazônia existem plantas que dependem exclusivamente das abelhas sem ferrão para continuar a existir  observa Kerr.

O Brasil tem cerca de 80% das cerca de 500 espécies de abelhas sem ferrão, boa parte delas na Amazônia. Segundo Kerr, elas produzem tanto mel quanto as abelhas com ferrão, de origem européia e africana, mas oferecem a óbvia vantagem de não ferir ninguém.

 Acredito que o brasileiro não usa as abelhas nativas para a produção de mel simplesmente porque não as conhece. Os portugueses introduziram as espécies européias, para produzir cera branca para velas. O brasileiro herdou a prática. Na verdade, os próprios índios também desconhecem como manipular essas abelhas  afirma Kerr.

Num trabalho pioneiro, o Inpa ensina índios e caboclos a criarem as abelhas.

 Um caboclo que ganhava R$ 60 por mês obteve R$ 6 mil em três meses. O mel das abelhas brasileiras é uma fonte de renda e de alimentos  observa Kerr, que em breve deixará a direção do Inpa para se dedicar somente ao estudo das abelhas sem ferrão.

As abelhas sem ferrão já foram extremamente comuns, mas desmatamentos, grandes queimadas e a destruição das colônias as levaram à beira da extinção. A exploração de madeira é uma das maiores inimigas das abelhas brasileiras. As madeireiras buscam na floresta justamente as árvores maiores, em cujas cavidades vivem os enxames. O estudo do Inpa revelou que mesmo os índios e caboclos da Amazônia não sabem conservar as colônias desses insetos.

 Por desconhecimento, índios e caboclos destroem as colônias após recolher o mel. Os meleiros pegam o mel arrebentando as colméias. Deixam as abelhas no chão e suas colônias são rapidamente devoradas por formigas. Nosso propósito é ensinar como criar as abelhas e ter uma fonte renovável de mel, que pode ser vendido e consumido. Até agora estamos tendo sucesso  frisa Kerr.

O estudo do Inpa mostrou que as espécies de abelhas sem ferrão do Brasil estão desaparecendo num ritmo mais intenso do que as matas.

 O problema é que as florestas dependem das abelhas para continuar a existir. Sem elas, as florestas morrem  alerta o cientista.

Fonte: Jornal O Globo, Rio, 14 de janeiro de 2002, Caderno Ciência

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