Florestas e agricultura familiar: uma realidade possível

Na Fazenda Bella, localizada em Brasília (DF), as bananeiras, ipês, eucaliptos, alfaces e rúculas – entre diversas outras plantas – crescem, cada uma em seu ciclo, em um mesmo local. A produção do permacultor e estudante de arquitetura, Osmany Segall Neto, de 26 anos, é o exemplo de um sistema agroflorestal que concilia o plantio do que é necessário para se alimentar com o que gera a harmonia no planeta.  

Imaginar a agricultura inserida em florestas pode ser algo difícil para algumas pessoas. Afinal, as ações do homem colocaram-nas em lados opostos na maior parte das vezes. Desde a colonização do Brasil, o desmatamento para a produção agrícola ou pecuária é comum. No Dia Internacional das Florestas e da Árvore, comemorado neste 21 de março, a Secretaria Especial de Agricultura Familiar e Desenvolvimento Agrário (Sead) mostra como um sistema agroflorestal funciona e todas as suas vantagens para o homem e o meio ambiente. 

Osmany aprendeu com o avô, desde pequeno, que preservar era importante. Mas foi há dois anos que decidiu focar neste ensinamento como um trabalho, ao lado da família e do amigo engenheiro agrônomo, Elber Queiroz. “Eu tive a oportunidade de fazer alguns cursos e conheci a agricultura sintóprica. É um conceito desenvolvido pelo Ernst Göstch, um agricultor suíço radicado no Brasil. Nele, o consórcio das plantas imita um processo de sucessão ecológica natural. Então a gente otimiza um reflorestamento que viria em 300 anos, para fazer isso em 30, com uma agricultura de valor agregado”, explica o permacultor.  

A Fazenda Bella possui seis canteiros de 60 metros, onde as árvores estão enfileiradas e entre elas as hortaliças são produzidas. A riqueza da diversidade de verduras, legumes, além das plantas frutíferas e madeireiras encanta. São mais de 200 espécies, uma ao lado da outra. Todo o solo é coberto pela biomassa gerada principalmente da bananeira e da poda do eucalipto, sinônimos de mais nutrientes. Agrotóxicos não são utilizados. Por assim ser, torna-se bem mais barato do que os manejos convencionais. Além de ser ambientalmente sustentável e socialmente justo. 

“A gente não acredita em praga. O nome correto para nós são agentes otimizadores. Então os animais que vêm aqui, como a formiga, a lesma e a joaninha, eles têm uma função dentro da sucessão ecológica. Se o homem cumpre a função deles, eles não aparecem”, explica Osmany. 

Na prática, os pequenos animais são como sinais de que algo está fora de harmonia. Ao ver as formigas nos limões, por exemplo, o permacultor entende que uma área do solo está com pouca cobertura, com pouco fungo. “Elas cortam as folhas, levam para o solo, e alimentam o fungo que elas comem. Então elas não são pragas, estão fazendo o papel delas dentro da natureza. A gente que não estava compreendendo isso antes”, diz Osmany. 

Outra mão direita do estudante de arquitetura nesse projeto agroecológico é o agricultor Balbino Dias Costa, que o ajuda a cuidar de todo o sistema e também aprendeu a enxergar assim a presença dos insetos. Para espantá-los das folhagens, ele utiliza métodos naturais. Misturas à base dos alimentos que ajuda a plantar. “Aqui a gente usa fumo, pimenta-do-reino, álcool e até leite. Não mata o bichinho, é para prevenir. Mas eu acho melhor que os vizinhos que usam veneno. Tudo a gente tira da natureza”, conta o agricultor. Todo o trabalho na fazenda é acompanhado por técnicos da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal (Emater-DF). 

Os alimentos orgânicos são vendidos em feiras, restaurantes e entregues à domicílio em cestas que custam entre R$ 50 e R$ 75. A renda por parte do que é produzido, principalmente diante da diversidade, é apenas uma das vantagens da agrofloresta. Além disso, também existe a preservação do solo, dos lençóis freáticos e da vida de todos os componentes do sistema. Sem contar a sombra, garantida com as grandes árvores. 

Reconhecimento

Mostrar que os sistemas agroflorestais são possíveis torna completo o trabalho que Osmany escolheu. Plantar preservando, cultivar sem desmatar. “Além de toda a produção que a gente tem, ver as coisas crescerem com solo úmido, com vigorosidade não tem preço. Eu tenho um amigo, o Juã Pereira do Sítio Semente, que diz que a melhor coisa que você pode fazer na vida é uma agrofloresta bem feita, impecável. A segunda melhor é uma agrofloresta também, mesmo sem tanto cuidado. De qualquer forma vai ser sempre a melhor opção. Não existe nada melhor nesse mundo do que você reconstruir o seu solo e plantar a sua água. É um trabalho que você vê crescer. Não tem como explicar, é muito satisfatório”, finaliza o permacultor. Ações como essa estão previstas no Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica  (Planapo), leia mais aqui. 

Todo o amor que tem por aquilo que faz, incentiva outras pessoas a terem um sonho parecido. Um deles é o próprio funcionário: “Assim que eu tiver minha terra, quero plantar desse mesmo jeito. É um projeto que não é só meu, mas de outras pessoas também. Sou apaixonado por todo esse trabalho”, conta Balbino. 

A ideia do sistema agroflorestal, da agricultura sintóprica e da permacultura tem sido difundida por meio de cursos para agricultores de assentamentos próximos e outros interessados. É possível também fazer visitas na propriedade para ver de perto como todo o sistema funciona. O próximo curso sobre o assunto tem data marcada: vai acontecer de 30 de junho a 2 de junho, na propriedade. É necessário fazer a inscrição e pagar uma taxa referente a custos de hospedagem e alimentação. Todas as informações estão disponíveis no site www.fazendabella.com.br.

Fonte: Portal do MDS :por Ingrid Castilho em 21/03/2017

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