Agrofloresta: o futuro da agricultura na sabedoria do passado

É no retorno aos primórdios da agricultura


florestaÉ no retorno aos primórdios da agricultura – ou mesmo, aos períodos que antecederam o cultivo de plantações pelo sapiens – que pode estar a resposta para uma equação que desafia o homem de hoje: como garantir a produção de alimentos sem ameaçar o futuro do planeta? A chave pode estar no sistema de agrofloresta, um casamento perfeito entre a preservação e o uso da terra para produção de comida e renda. O método, que pode parecer arcaico em um primeiro olhar, está em ascensão no mundo inteiro e coloca a região na vanguarda do respeito à vida e ao meio ambiente, ao propor uso da ciência associado ao conhecimento primitivo.

Da teoria à prática: o casal que voltou às raízes

De tanto ensinar que a agrofloresta é a melhor alternativa para produzir alimentos sem ameaçar o futuro do planeta, a professora universitária Gabriela Schmitz Gomes decidiu arregaçar as mangas e pegar na terra. O conceito, que integra a produção agrícola e a preservação do meio ambiente, é desenvolvido por ela há cinco anos no distrito de Albardão, no interior do Rio Pardo.

Em uma área de meio hectare da propriedade onde ela e o marido vivem, brotam razões para acreditar que o modelo – inspirado nos primórdios da agricultura –, poderá ser a chave para abrir a porta da preservação em larga escala. “Há 12 anos éramos professores no Paraná e pensávamos em, um dia, voltar à propriedade. A ideia era vir para cá e viver desta atividade”, conta Gabriela, que é engenheira florestal.

Na academia ela sempre ensinou os conceitos de agrofloresta, tema debatido no Brasil desde a década de 1990. A professora conta que, na teoria, o método sempre apresentou os melhores resultados para a preservação da natureza. Ao lado do esposo, o professor de geografia Carlos Miguel de Moraes, ela colhe as primeiras laranjas e bergamotas plantadas na agrofloresta em formação. “Este espaço era uma antiga roça, havia sido degradado. Há cinco anos começou a ser recuperado com o plantio de citros. A gente tenta imitar uma floresta, pois a própria família das laranjas, original da Ásia, surgiu primeiro em meio às florestas”, explica Gabriela.

Cada planta tem uma função no espaço de Gabriela e Carlos Miguel. A bananeira não dá só banana: garante também material orgânico para a terra e sombra. Embaixo das laranjeiras e bergamoteiras, pés de alface e cebola ajudam a manter a cobertura do solo curta, sem a necessidade de roçadas tão frequentes. Uma planta cuida da outra, e todas cuidam do meio ambiente. “As espécies foram evoluindo e crescendo assim, juntas, desde que surgiram na terra. Aqui o plantio é feito em linhas planejadas, em um modelo organizado”, ensina a engenheira florestal.

Ensinar sempre

Para produzir seus citros, o casal Gabriela e Carlos Miguel não se afastou do ensino. Quem tem a cátedra na veia quer multiplicar o conhecimento pela vida inteira. A propriedade de Albardão se chama Sítio Surucuá de Educação Agroflorestal. Recebe turmas, cursos e estagiários. Martin Rodrigo Nacchi, aluno do curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) é um deles.

Há três meses na companhia de Gabriela e Carlos Miguel, o jovem voltará para Frederico Westphalen, no Norte do Rio Grande do Sul, sabendo que a agrofloresta possibilita a manutenção da atividade rural no campo. “Não resta dúvida que este sistema pode ser aplicado integralmente nas propriedades, e de qualquer tamanho. Em São Paulo e também em outros estados, já se tem exemplos de grandes propriedades com a produção focada no modelo agroflorestal”, diz o estudante.

Para Carlos Miguel é preciso compreender a sutileza da natureza. Ela mostra quais são as ferramentas necessárias para cuidar de uma agrofloresta. “É um caminho que nos exige paciência, é preciso entender o ciclo das plantas, como elas funcionam, para então adaptar a produção”, compartilha o professor.

Entre alunos e professores, a agrofloresta de Albardão recebe também a pesquisa agrícola. A última equipe a visitar o Sítio Surucuá veio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) de Pelotas . Os técnicos queriam saber na prática como se juntam espécies diferentes, com o objetivo comum de preservar e colher. “Nós começamos o trabalho aqui. Eu creio que serão necessários uns 20 anos para saber o resultado. Quanto antes se começa no método da agrofloresta, mais cedo se entende como este sistema funciona. Ela é capaz de se auto-organizar”, define Carlos Miguel.

A expansão no RS

Conforme a divisão de Flora da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), o Rio Grande do Sul tem 82 agroflorestas já certificadas pelo órgão. Deste total, 12 estão na região de atuação do Balcão Ambiental Unificado de Santa Cruz do Sul. O município com maior quantidade de registros é Montenegro, com cinco certificações. Arvorezinha, Boqueirão do Leão, Candelária, Dom Feliciano, Rio Pardo, Roca Sales e Sinimbu têm, cada um, uma agrofloresta registrada junto a Sema. Conforme a área técnica, encontram-se em aberto 17 processos para certificação.

Veneno nesta propriedade, nem pensar

Acreditando que a agricultura florestal tem potencial para regeneração de áreas degradadas, Amadeu Krebs decidiu investir na agrofloresta. O Centro de Educação Agroflorestal Cepa Cipó, localizado na Linha Pinheiral, no interior de Santa Cruz do Sul, é o território onde ele aplica este conceito. Na propriedade, planta-se uma grande diversidade de espécies que, juntas, compõem os diferentes estratos da floresta, onde cada espécie tem sua função específica. Isso é importante para a saúde e o potencial alimentar dos humanos, pois dispensa o uso de defensivos.

“Na agrofloresta, se planta junto dos citros as bananeiras, árvores frutíferas nativas e ainda faixas de capim produtor de biomassa. Essa é responsável por adubar o solo, quando podadas e organizadas em leiras, cobrindo bem a terra”, ensina Krebs. Além disso, segundo ele, o sítio abre o caminho para cursos de formação e experimentação no tema. “Recentemente tivemos um curso para o planejamento de clima frio. Afinal, sabe-se muito sobre agroflorestas em outras partes do País, onde o clima e culturas são um pouco diferentes.”

O produtor deseja que o centro se transforme em referência e que um dia seja um verdadeiro laboratório ao ar livre, local de experimentação e produção em grande escala. “Existe um potencial grande para que em Santa Cruz se cultive do Açaí Jussara, para produção de palmito, e da erva-mate, pois são plantas que se adaptam bem ao clima da região, assim como ao modelo de agrofloresta”, complementa.

Agrofloresta permite uso da reserva legal

O Balcão Ambiental Unificado, órgão que reúne técnicos do governo do Estado das áreas de licenciamento e fiscalização, é o ponto de apoio para a implantação de agroflorestas nos vales do Rio Pardo, Taquari e Caí.
O escritório sediado em Santa Cruz do Sul reúne a expertise da Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (Fepam) e o conhecimento da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema). Para 65 municípios da região central, o balcão é a porta de entrada à certificação de uma propriedade de agrofloresta.

O método permite que a produção avance com segurança jurídica até mesmo em áreas ditas como intocáveis, como a reserva legal de uma propriedade. “A partir desta certificação fica autorizado todo o manejo aceito em vegetação nativa e registro de plantios. Ele possibilita, de maneira legal, o uso comercial de produtos da biodiversidade e muitas vezes até mesmo manejo em remanescentes de vegetação nativa, reserva legal e áreas de preservação permanente”, detalha o biólogo Pablo Pereira, do Balcão Ambiental.

O processo de certificação é feito pelo Balcão Ambiental Unificado de maneira gratuita. Santa Cruz também atende Sinimbu, Candelária e Rio Pardo. O Sítio Surucuá, da Gabriela e do Carlos Miguel, é um deles. Em processo de verificação estão ainda pedidos de Arvorezinha, Ilópolis e Putinga, no Vale do Taquari. Santa Cruz, Vera Cruz e Venâncio Aires também já têm iniciativas a caminho desta certificação.

“Praticamente toda região com potencial de uso rural tem condições de implantar o sistema de agroflorestas. Aqui já são diversas iniciativas ocorrendo e cada vez aumentando em área e agricultores”, aponta o biólogo Pablo Pereira.

Os quintais também são agroflorestas

A Agrofloresta, ou Sistema Agroflorestal (SAF), é caracterizada por um conjunto de técnicas com procedimentos voltados à preservação e recomposição ecológica, que são aliados aos métodos de produção agrícola.

Por meio do sistema agroflorestal é possível o uso dinâmico de sucessão de espécies nativas, na intenção de trazer as espécies que agregam benefícios ao solo e para as espécies plantadas naquela área. A agrofloresta recupera antigas técnicas de civilizações primitivas, espalhadas em várias partes do mundo, associando a elas o conhecimento científico contemporâneo. A agrofloresta não é nova: é a sua utilização atual que torna-se moderna.

Um exemplo clássico são os quintais domésticos. Em microescala, eles são espaços que reúnem diferentes tipos de plantas, com usos distintos, mas que convivem de maneira harmônica. No mesmo quintal, árvores frutíferas, verduras e legumes interagem entre si, podem fornecer comida à família e viabilizar o compartilhamento de alimentos que sobram entre os vizinhos.

Reproduzido em escala maior, em grandes áreas produtivas, o modelo de agrofloresta restringe um pouco a quantidade de espécies que convivem juntas. Enquanto em um quintal, ou em propriedades de poucos hectares, mais de dez espécies ocupam o mesmo espaço, em áreas maiores o comum é mesclar um ou dois tipos de plantas dedicadas à produção, com as árvores e plantas nativas daquele território.

Fonte:GAZ em 17-06-2019 por Rodrigo Nascimento

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