Agroflorestas são opções para convívio com a seca no interior




Por Redação, 23:00 / 04 de Junho de 2019
O plantio de mogno, cujo valor mercadológico é elevado, tem se tornado aposta de alguns produtores. Há o entendimento de que agricultura tradicional de cultivo de grãos e até o gado de leite estão ficando inviáveis no sertão

 

Os consecutivos anos de chuvas irregulares no Estado fizeram com que produtores buscassem alternativas à dependência da água proveniente da chuva. As agroflorestas surgem como uma aposta viável. O Ceará tem cerca de 200 núcleos de plantio de mogno africano e cedro, as conhecidas madeira-de-lei, que possuem alto valor mercadológico, mas que são culturas de ciclo produtivo de longo prazo, o que acaba desencorajando alguns produtores. Entretanto, no município de Aurora, no Cariri cearense, distante cerca de 450 km de Fortaleza, um produtor rural apostou no cultivo da planta, e o resultado tem dado certo.

A unidade tem, inclusive, atraído produtores que ficam admirados com o desenvolvimento do plantio que necessita de pouca água.

A iniciativa do núcleo é do médico e produtor rural Joary Lacerda, de 83 anos. No sítio Alves, uma área total de 60 hectares, adquirido em 1976, ele iniciou o desenvolvimento de um projeto agroflorestal de preservação da natureza e de cultivo de plantas nativas e espécies nobres. "Isso aqui era só cascalho, muito desmatado, ruim, mas fui cultivando mata nativa do Semiárido, preservando e hoje está essa beleza", descreve.

Há quatro anos, Lacerda iniciou o plantio de mogno africano das variedades senegalense e ivorense, e de cedro. Em uma área de 2,5 hectares, cultivou 100 mudas. "Os resultados foram muito favoráveis, as árvores se desenvolveram rapidamente", disse. "Em seguida, plantei mais e vou continuar até quando puder". Atualmente, já são cerca de 800 árvores.

O plantio é adensado e as árvores são cultivadas em distância quadricular de quatro metros. Segundo o produtor, exige pouca água e a irrigação pode ser feita por gotejamento. Ademais, a área fica às margens do Rio Salgado, que assegura fonte de água para a unidade agroflorestal ao longo do ano. Todos esses fatores contribuem para o desenvolvimento do mogno. Com apenas quatro anos de cultivo, há árvores com quatro metros de altura e 30 cm de diâmetro. Na fase adulta, podem chegar a 60 metros de altura.

No projeto agroflorestal que está em andamento no sítio Alves, há ainda criação de bovinos para leite e corte e de aves, como ganso, peru e galinha caipira. "Respeitando a natureza", Lacerda conseguiu criar um ambiente verde, de arborização densa e com preservação ambiental marcante. "Aqui, não se desmata, não se queima, não se caça, e a matéria orgânica fica no solo", explicou Joary Lacerda. "Sempre gostei do campo e isso me motivou a implantar essa unidade agroflorestal".

Poupança Verde

Após dez anos do início da plantação, já é viável economicamente fazer o corte e venda da madeira nobre. "Isso aqui é uma poupança verde e cada árvore, na cotação atual, renderia mil reais", pontuou. Aos 83 anos de idade, indagado se tem esperança de ver a venda dos primeiros lotes, responde com largo sorriso no rosto. "Se não der para mim, vai dar para meus filhos e netos".

O Sindicato Rural de Aurora, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural e o próprio produtor Joary Lacerda têm incentivado o cultivo de mogno, mas a maioria dos agricultores resiste. "São imediatistas, querem um lucro mais rápido", lamentou Lacerda. "A agricultura tradicional de cultivo de grãos e até o gado de leite estão ficando inviáveis no sertão".

O presidente do Sindicato Rural de Aurora, Marcílio Macedo, reforçou que a entidade promove visitas guiadas à área de produção da cultura com o objetivo de incentivar outros agricultores a seguir o exemplo local. "Esse é um projeto experimental que deu certo e com certeza pode ser replicado em muitas áreas da região", observou. "Não há dificuldades para o plantio e o desenvolvimento das árvores".

Expansão

Na região Centro-Sul, outro produtor apostou no plantio do mogno. Na fazenda Jaburu, no distrito de Canindezinho, no município de Várzea Alegre, os cinco mil pés da cultura africana se destacam em meio ao cenário seco, típico do Semiárido. De grande porte e com copas verdes e frondosas, as árvores chamam a atenção. Foram plantadas em uma área que antes era utilizada para o cultivo de capim para formação de pastagem para os bovinos, culturas de sequeiro, fruteiras e até café.

A propriedade pertence ao médico e agropecuarista Raimundo Sátiro. Apaixonado pela vida no campo, apostou no cultivo do mogno. "Tomei conhecimento da espécie por um amigo, o empresário Carlos Kleber Correia, que trouxe algumas sementes e iniciou o plantio aqui em nossa cidade, em sua propriedade na Serra dos Cavalos, em 2011", contou. O cultivo inicial foi de 360 hectares que está em desenvolvimento.

Os casos de Aurora e Várzea Alegre não devem ser isolados, conforme avalia Marcílio Macedo. "Temos incentivado outros produtores a fazer plantio de mogno africano, preservar as suas áreas de produção agropecuária". Os benefícios vão além do cuidado com o bioma. O objetivo é fugir da dependência da chuva.


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