A REPOSIÇÃO FLORESTAL OBRIGATÓRIA E O PLANEJAMENTO ENERGÉTICO REGIONAL

A REPOSIÇÃO FLORESTAL OBRIGATÓRIA E O PLANEJAMENTO ENERGÉTICO REGIONAL

C. R. de LIMA[1] ,  S. V. BAJAY[2]

RESUMO – A partir do conceito de poder calorífico volumétrico útil (BRITO, 1993)  e das áreas reflorestadas com recursos advindos da Taxa de Reposição Florestal Obrigatória, pelas das Associações de Reposição/Recuperação Florestal do Estado de São Paulo, calculou-se a produção florestal em unidades energéticas, a sua equivalência com o óleo combustível (OC4 - A). A partir do preço do óleo determinou-se os custos que seriam evitados caso este insumo energético fosse substituído por biomassa (madeira) e; com base nos custos determinou-se as áreas para novos reflorestamentos. Para a área, produtividade e ciclo considerados, apenas com a venda da madeira (lenha) poderiam ser reflorestados cerca de 60.104,35 ha , ou seja uma área 2,5 vezes maior que a área inicial (24.000 ha). Caso sejam considerados os recursos que seriam gastos com o óleo combustível ou os custos evitados com a substituição do óleo pela madeira as áreas passíveis de reflorestamento seriam superiores a 10 vezes a área original. A produção de madeira é estimada em 5.760.000 m3 st, correspondente a 2,016 * 106 toneladas de madeira com a conseqüente retirada de 3,6288 * 106 toneladas de CO2 da atmosfera e devolução de 2,6208 * 106 toneladas de oxigênio para a atmosfera. O trabalho desenvolvido pelas associações de reposição/recuperação florestal  evidenciam a importância da taxa de reposição florestal obrigatória como um instrumento legal para a política e o planejamento energético regional, possibilitando benefícios econômicos, sociais e ambientais.

PALAVRAS-CHAVE: lenha, equivalência energética, reposição/recuperação florestal.


INTRODUÇÃO

                Uma análise da evolução do balanço energético nacional demonstrou que no Brasil, em 1941, a madeira respondeu por cerca de 75% do total da energia consumida; em 1953 por 50%; em 1963 por 43% e em 1990 por 16%. Sendo que no período de 1970 a 1990 a quantidade consumida permaneceu na faixa de 28 a 32 milhões de toneladas equivalente em petróleo (tEP). Demonstra a existência de um mercado cativo para uso energético da madeira (LIMA, 1992 e LIMA, 1993). Em termos absolutos, o montante utilizado nos últimos 10 anos vem mantendo-se relativamente estável, entre 240 e 260 milhões de metros cúbicos anuais. Isto coloca a geração de energia como um importante componente da utilização de recursos florestais em nosso País (BRITO, 1993). A mão-de-obra era estimada em mais de 120 mil pessoas, somente nas atividades de coleta e transporte de madeira. Numa hipótese conservadora de que somente o montante de lenha utilizada pelo setor industrial (40% do consumo global), seja efetivamente comercializado, o volume de recursos monetários ultrapassariam US$ 500 milhões anuais (BRITO et al., 1993).

                No Brasil, em 1993, dos 282,31*106 m3 de biomassa florestal (madeiras) consumidos para diversas finalidades, 237,9*106 m3 de madeira foram utilizados para finalidades energéticas (84,3%) e 44,4*106 m3 para outros fins (15,7%), (ARRUDA, 1996).

                A utilização racional de fontes energéticas e a otimização dos suprimentos dessas, dentro de políticas econômicas, sociais e ambientais vigentes, são os objetivos do planejamento energético (BAJAY, 1989).  Del Valle (1985), citado por BAJAY (1989), propõe que se concentre atenção em três objetivos sociais básicos: o melhoramento da qualidade de vida da população, da capacidade da sociedade para a sua autodeterminação e da sustentabilidade ambiental da sociedade, no cumprimento destes o sistema energético desempenha um papel decisivo. 

                Considerando os dados nacionais expostos acima é  necessário o cumprimento da legislação federal, referente a reposição florestal obrigatória, instituída pelo Código Florestal Brasileiro em 1965. Não somente pelo aspecto legal, mas com a visão de que a reposição florestal obrigatória constitui-se num importante instrumento de política e de planejamento energético nacional e regional. Neste sentido, os objetivos deste trabalho são: apresentar dados relativos a áreas reflorestadas pelas associações de reposição/recuperação florestal no Estado de São Paulo; estimar as produções volumétrica e gravimétrica de madeira; estimar a equivalência energética da madeira produzida em relação ao óleo combustível (OC4 - A); estimar os custos com a lenha, óleo combustível e os custos evitados quando da substituição do óleo pela biomassa (madeira) e, a partir dos custos estimar quais as áreas que ponderaríamos novamente reflorestar. São, também, relacionados alguns benefícios ambientais e sociais.

MATERIAL E MÉTODOS

                A partir do conceito de poder calorífico líquido volumétrico (PCLV), apresentado por BRITO (1993), procede-se um exercício de cálculo para atingir seqüencialmente os objetivos propostos. Para tanto, foram utilizados dados coletados em bibliografias especializadas e obtidos em instituições nacionais ligadas ao setor florestal.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

                Neste item é desenvolvido um exercício de aplicação da metodologia apresentada por BRITO (1993), com o objetivo de expressar a produção e a produtividade florestal em equivalentes energéticos para o óleo combustível (OC4 - A), expressar, em função dos preços atuais, a importância econômica dos recursos florestais em substituição a este energético e, possibilitar uma melhor compreensão e fixação da metodologia. Para tanto utilizamos dados de projetos de reposição florestal obrigatória realizados pelas associações de reposição/recuperação florestal do Estado de São Paulo. Estas, em conjunto, plantaram no Estado cerca de 40 milhões de árvores, na maior parte (80%) do gênero Eucalyptus. Assumindo-se que o espaçamento seja de 3 x 2 metros, obtemos um stand de 1667 árvores por hectare, resultando portanto numa área de plantio de, aproximadamente, 24 mil hectares. Assumindo-se também que a espécie seja o E. grandis com um incremento médio anual (produtividade) de 40 m3 st/ha/ano e com densidade básica de 500 kg/m3 estéreo (st)  e que o teor de umidade, no momento da utilização, seja em média de 15 %.

Poder calorífico líquido para u=15 %: PCLu=[PCI*(100-u)/100]-(6*u) PCL15= [4000*(100-15)/100]-(6*15) = 3.310 kcal/kg

Densidade da madeira para u=15%:

DATu=(Db*10000)/[(100-u)*(100-Ru)]=

=(500*10000)/[(100-15)*(100-5)] \ DAT15 = 619,19 kg/m3 st

Poder calorífico líquido volumétrico, u=15%: PCLVu=PCLu*DATu

 = PCLV15 = 3.310*619,195 (kcal/kg)/kg/m3 = 2.049.536 kcal/m3 st

Volume total de madeira produzido, ciclo de corte de 6 anos

Volume Total = Área*Produtividade*ciclo de corte

Volume Total = 24.000 * 40 * 6 = 5.760.000 m3 st

Produção florestal total em energia no teor de umidade considerado:

Produção energética = Volume total*PCLVu

Produção energética = 5.760.000*2.049.536 = 1,180532*1013 kcal

Equivalente em óleo combustível para a produção energética da madeira, com poder calorífico do óleo combustível de 10.000 Kcal/Kg

EOC  = Produção energética da madeira = 1,180532 *1013

                    Poder calorífico do óleo        10.000

\ EOC @ 1,180532419 * 109 kg   ou  1,180532419 * 106 t

Custos evitados com a substituição deste insumo energético pela madeira.

Preço do óleo combustível (OCA), em agosto de 1999, R$ 0,3044/kg, incluindo frete até 250 km.

Custos com óleo : EOC * Preço do óleo = 1,180532419*109*0,3044

= R$ 359.354.068,30

Custos/lenha: Produção volumétrica*Preço do m3st=5.760.000*12,00

                = R$ 69.120.000,00

Custos evitados : Custos com óleo - Custos com lenha

= 359.354.068,30 - 69.120.000,00 = R$ 290.234.068,30

Preço máximo do metro cúbico estéreo de madeira em substituição ao óleo combustível.

Preço = Custos com óleo / Produção volumétrica

= R$ 359.354.068,30 / 5.760.000 m3 st = R$ 62,39 /m3 st

                No presente exercício não consideramos as eficiências envolvidas nos processos de conversão de energia da madeira em substituição ao insumo energético considerado, portanto os resultados obtidos não são precisos, mas dão uma visão aproximada das quantidades de energia e dos recursos econômicos envolvidos.

                Para comparações no mercado atual de madeira os preços são da ordem de R$ 12,00/m3 st posto na indústria para o uso energético (lenha), segundo informações obtidas junto a Associação de Recuperação Florestal do Médio Tietê – FLORA TIETÊ, em Penápolis – SP. Enquanto que o preço do óleo combustível (OC4 - A) é de R$ 0,3044 por kg posto em Bauru – SP, cerca de 250 km da refinaria em Paulínia – SP, com o frete incluso.

                Segundo a Sociedade Brasileira de Silvicultura (SBS), citado por GUT (1998), os custos atuais para reflorestar giram em torno de R$ 1.150,00 por hectare para o Estado de São Paulo, sendo R$ 850,00 para a implantação e R$ 300,00 para a manutenção (R$ 50,00/ha/ano).

                Partindo-se dos custos com os insumos energéticos e dos custos evitados com a substituição do óleo combustível pela madeira (lenha) e, considerando-se os custos de implantação e manutenção de florestas atuais no Estado de São Paulo, estima-se que as novas áreas a serem reflorestadas estariam entre 60.000 e 312.000 hectares, ou seja de 2,5 a 13 vezes a área inicialmente reflorestada (24.000 ha) com os recursos da taxa de reposição florestal obrigatória.

O sequestro de Carbono.

                Um dos maiores desafios do homem é encontrar maneiras de reduzir a concentração de gás carbônico na atmosfera. O dióxido de carbono (CO2), é o principal responsável pelo chamado efeito estufa, um fenômeno que está elevando a temperatura média da Terra. Como reduzir as emissões de gás carbônico e ainda retirar da atmosfera o excedente já liberado? Plantando-se árvores, seria a resposta mais imediata e correta. As árvores em crescimento retiram, naturalmente, o carbono da atmosfera e devolvem oxigênio, através da fotossíntese (GUT, 1998). Segundo Cruz e Freitas (sd.), citados por GUT (1998), para cada tonelada de madeira seca produzida por florestas plantadas são retiradas da atmosfera 1,8 toneladas de gás carbônico e devolvidas a atmosfera 1,3 toneladas de oxigênio. Além disso, o processo de conversão de CO2 em madeira é fracamente endotérmico (absorve calor solar), contribuindo para diminuir a temperatura do planeta.

                Em nossa estimativa para a área reflorestada em questão (24.000 ha), com a produtividade e ciclo considerado, seriam produzidas 2,016*106 toneladas de madeira, ao mesmo tempo em que seriam retiradas da atmosfera 3,6288*106 toneladas de CO2 e devolvidas para a atmosfera 2,6208 * 106 toneladas de oxigênio. Para o ciclo considerado seriam colhidas anualmente uma área de floresta de 4.000 ha, ou seja seriam anualmente retiradas 6,048*105 toneladas de CO2 e devolvidas 4,368*105 toneladas de oxigênio.

CONCLUSÕES

Pelo exposto no presente artigo podemos concluir que:

A madeira é um importante insumo energético, principalmente para um país em desenvolvimento situado na Região Intertropical, como é o caso do Brasil.

As variáveis consideradas, o poder calorífico, o teor de umidade, a densidade e a produtividade florestal, são de importância fundamental para a avaliação da madeira como insumo energético.

O equivalente em óleo combustível para a floresta considerada é de 1,180532419 * 109 kg de óleo.

O recurso econômico envolvidos seria da ordem de R$  359.354.068,30 no caso de óleo combustível; de R$ 69.120.000,00 no caso da madeira (lenha) e, de R$ 290.234.068,30 no caso dos custos evitados (diferença entre os custos com o óleo combustível e com a madeira).

Estes recursos, caso reinvestidos em reflorestamento, seriam suficientes para plantar uma área de 60.104,35 ha considerando-se os custos com lenha, de 252.377,45 ha considerando-se os custos evitados (diferencial entre os custos com óleo combustível e os custos com a lenha) e, de 312.481,80 ha considerando-se os custos com o óleo combustível. O que corresponderia, respectivamente a 2,50; 10,52 e, 13,02 vezes a área plantada inicialmente (24.000 ha).

O preço máximo pago pela lenha seria de R$ 62,39/m3 st quando em substituição ao óleo combustível. Ressalvando que as eficiências dos processos de conversão não foram consideradas.

A área reflorestada em questão é responsável pela retirada de 3,6288*106 toneladas de CO2 da atmosfera e pela devolução de 2,6208*106 toneladas de oxigênio para atmosfera.

REFERÊNCIAS  BIBLIOGRÁFICAS

ARRUDA, G. Eucalipto tem múltiplas utilidades. Jornal MADEIRA & CIA. Curitiba, 1996. Alternativa Editora Ltda, Curitiba, 1996. 3(25):5.

BAJAY, S. V. Planejamento energético: Necessidade, objetivo e metodologia. Revista Brasileira de Energia. Campinas, 1989. SBPE, Campinas, 1989. 1(1): 45 – 53.

BRITO, J.O. Expressão da Produção Florestal em unidades energéticas. In: Congresso Florestal Brasileiro, 7°, Anais. Curitiba, 1993.

BRITO, J.O. et al.  Consumo da madeira como lenha lidera o setor. Jornal do Convênio USP/IPEF, Piracicaba, 1993. 7(51): “3”.

GUT, F. O mercado e o seqüestro do carbono. Revista SILVICULTURA. São Paulo, 1998. V.R. Comunicações Ltda. São Paulo, 1998. 19(75):42-48.

LIMA, C. R.  Madeira: fonte alternativa e renovável de energia - I. IN: Encontro Brasileiro em Madeiras e em Estruturas de Madeira, 4°. Anais. São Carlos - SP, 1992. LaMEM - EESC -USP, 1992. V.4. pag. 91-104.

LIMA, C. R.  Contribuições da co-geração de energia na qualidade da madeira como material de construção civil. São Carlos, 1993. 64 p. Dissertação (Mestre em Arquitetura) - EESC - USP.

LIMA, C. R.   Cogeração de energia e qualidade de madeira. IN: Congresso Brasileiro de Planejamento Energético, 2o . Anais. Campinas – SP, 1994.

LIMA, C. R.  O papel das Associações de Reposição Florestal na Política e no Planejamento Energético Regional. (no


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