Guinada ecológica na produção de maçãs no Vale de Mala

O Vale de Mala, situado a 85 km ao sul de Lima, Peru, é um ambiente costeiro ocupado por pequenas propriedades (1 ha em média), que apresenta condições ideais para a fruticultura e cujo principal produto agrícola é a maçã.

Por sua proximidade com a capital, os vendedores de agroquímicos desfrutavam no Vale de amplo mercado para seus produtos. Devido ao intensivo uso de agrotóxicos, resultado das recomendações desses técnicos, eram freqüentes os casos de intoxicação entre os agricultores.

O manejo fortemente baseado em insumos químicos propiciou que, no início da década de 90, o Heliothis virescens, que geralmente ataca o algodão, passa-se a atacar as macieiras do Vale. Os agricultores, desesperados e ainda aconselhados pelos vendedores de agroquímicos, aumentaram a quantidade e a freqüência das aplicações de agrotóxicos. O resultado foi o surgimento de uma nova praga, que afetou ainda mais os pomares da região.

O Instituto Huayuná, que trabalha com a promoção da agricultura sustentável na região, convocou os agricultores para encontros com o objetivo de discutir o papel dos venenos e os hábitos e o ciclo biológico dos insetos. A iniciativa não deu muitos resultados, pois os agricultores estavam acostumados com os pacotes de insumos químicos e não havia tempo disponível para que fossem discutidas alternativas de controle de pragas. Além disso, os agricultores não priorizavam reuniões para busca de soluções coletivas.

O Instituto decidiu então iniciar uma pesquisa e ao mesmo tempo desenvolver um processo de capacitação junto a agricultores-promotores buscando as causas do problema e não somente formas de solucioná-lo. Este processo de capacitação favoreceu que os agricultores fossem desenvolvendo e adaptando propostas de manejo integrado das culturas e redescobrindo suas lavouras e as diferentes relações ecológicas que nelas se dão.

Esta formação sensibilizou os agricultores, que desenvolveram uma maior clareza dos problemas do Vale em relação à contaminação ambiental, à qualidade nutricional dos alimentos e aos problemas de saúde e abriu a possibilidade do surgimento de uma proposta de agricultura ecológica para a região.

Hoje as famílias da região já obtiveram grandes avanços na comercialização e contam com a certificação orgânica. Formaram uma pequena empresa para comercialização e instalaram um ponto de venda na região. Fizeram também um acordo com uma ONG em Lima que incluiu as maçãs ecológicas em seu programa de apoio alimentar a crianças. Além de desenvolver propostas de manejo agroecológico para as maçãs, investem em difundir suas experiências para outros agricultores e recebem mais de 200 visitantes por ano, incluindo agricultores de outras regiões, técnicos, professores e estudantes universitários.

Cezar de la Cruz, et al. Proceso de elaboración de la propuesta de agricultura ecológica en el Valle de Mala. Boletín ILEIA, Fundación ILEIA, dezembro de 2001 vol.16 nº4, pg.16-17.

Adaptada Pelo : BOLETIM 106 - Por Um Brasil Livre de Transgênicos

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