Produzindo praticamente de tudo na fazenda, Joe Carlos serve de referência a outros produtores.

Produzir alimentos orgânicos de forma profissional, investindo em produtos naturais e ecologicamente corretos dentro da concepção de sustentabilidade. Esse é o caso de engenheiro florestal Joe Carlos Vale, que mantém na Fazenda Malunga, no município de Unaí, próximo ao Distrito Federal, a produção de pelo menos 45 variedades de produtos orgânicos, entre hortaliças, frutas, lácteos , ovos e carne. 

O sucesso de Joe foi surpreendente, rendendo um convite do Ministério da Agricultura para ser consultor nessa área. Através da Emater-DF, Joe está coordenando um Programa de Agricultura Orgânica, da Secretaria de Agricultura do Distrito Federal, que visa, principalmente a orientação dos produtores. A idéia, segundo ele, é consolidar a produção em todos os níveis, com a difusão de um "novo mundo orgânico, onde todos possam sobreviver da atividade. 

Com 12 anos de dedicação, o produtor comercializa cerca de 20 toneladas de produtos ao mês. Sua propriedade possui uma área de 28 hectares em produção e conta com 32 colaboradores diretos, entre empregados e parceiros. Todos os funcionários são registrados e têm contrato de participação nas vendas. Mais de 30 variedades de hortaliças estão sendo produzidas em sete hectares da fazenda. "A diversificação de produtos é muito importante para obter sucesso na produção orgânica", ensina o produtor, que busca, através do profissionalismo, o equilíbrio do processo de produção. 

Os produtos são vendidos para 150 famílias no sistema delivery, cinco lojas das redes de supermercado Pão de Açúcar e Extra, em quatro feiras específicas de produtos orgânicos,, organizadas por associações de produtores, e na própria CEASA-DF, que já conta com uma área exclusiva para orgânicos, com 12 bancas para difusão do produto.

Para Joe "o produto orgânico agrega uma série de valores em relação ao convencional, pois valoriza a saúde do consumidor e a manutenção dos recursos naturais. Mas ressalva, que isto, significa maior custo de produção. 

Bimestralmente, Joe Carlos recebe na Fazenda Malunga a visita de seus clientes, para que conheçam o processo produtivo.

Eles passam o dia no local, discutem assuntos referentes à qualidade, preço e tiram dúvidas. Alguns já fizeram da visita um programa de lazer e participam desse "Dia de Campo" há sete anos . "Essa relação direta e transparente com o cliente é outro ponto muito importante na difusão dos orgânicos", destaca o produtor, porque se busca a retomada da ética na produção e na relação com o consumidor.

"Buscamos uma produção alternativa que não agrida o meio ambiente. Uma alternativa ao uso de produtos químicos com qualidade de vida para o produtor rural, para que ele volte a ter orgulho de ser agricultor" explica. Segundo Joe Carlos uma produção orgânica também precisa ser economicamente viável e socialmente justa. "Não é só deixar de aplicar agrotóxicos. É preciso produzir com equilíbrio do meio ambiente", lembra. Ele é certificado pela Associação de Agricultura Orgânica (AAO), pelo Instituto de Biodinâmica (IBD) e Associação Ecológica de DF (AGE-DF)

Joe Carlos presta assessoria na Emater, treinando técnicos para posterior assistência aos produtores, tendo já formado 30 dentro desse programa de Secretaria do Distrito Federal. Com a tendência de mercado, o número de produtores de orgânicos no DF passou de 8, em 1999, para os atuais 29. Outros 55 estão em fase de conversão para produção orgânica. Uma das questões mais relevantes nessa produção é a organização dos produtores, que devem estar unidos em associações. 

Consumidor está mudando a mentalidade. O produtor e engenheiro florestal Joe Carlos Vale acredita que o comércio tem experimentado grandes mudanças nos últimos anos, e o consumidor ser preocupa mais com sua saúde e com o meio ambiente. "Hoje, a mídia esta simpática a essa causa, e tudo isso está trabalhado junto ao consumidor, causando um retorno à vida na terra". Ele lembra que os problemas ecológicos e os casos de intoxicações, que têm se multiplicado nos últimos anos, estão servindo de alerta à humanidade sobre o risco dos produtos químicos na produção agrícola. Um dos casos mais graves é o da aviação agrícola que distribui resíduos tóxicos pelo ar, a uma grande distância. "Até os recursos renováveis não estão conseguindo mais se renovar, e a agricultura orgânica é uma alternativa viável a esses problemas", acrescenta.

Considera fácil introduzir um conceito de mudança para o produtor que está enfrentando dificuldades, pois a resistências é maior quando o sistema tradicional está produzindo um resultado economicamente viável. Para ele, a Embrapa também está apoiando a agricultura orgânica com desenvolvimento de sistemas de pesquisa para produção neste setor orgânico. Joe lembra que a Europa os orgânicos já dominam o mercado de alimentos e acredita num crescimento no resto do mundo. Com o aparecimento de novas tecnologias de produção, específicas para os orgânicos, a tendência é de um queda na diferença de preços em relação ao produto convencional, uma vez que o produtor estará menos sujeito aos riscos da produção, hoje maiores no caso de produtos sem agrotóxicos.

Para reduzir esses riscos, é interessante começar com verduras mais adaptadas ao clima da região. O mais importante é uma produção com qualidade e não a quantidade. Todos os funcionários da fazenda de Joe Carlos conhecem as razões que norteiam a produção orgânica. "Explicamos o porquê de todas as normas técnicas exigidas pelas certificadoras". Ele acredita que no cultivo orgânico é totalmente viável produzir até commodities, como o milho e a soja. Antes de tudo é preciso mudar o sistema de produção, investindo na diversificação e na biodiversidade. "O setor industrial químico escravizou o produtor, fazendo-o acreditar que é impossível produzir sem agrotóxico". 

Joe acredita que muitos produtores não certificam seu produto por medo de custos adicionais. No entanto, a certificação é garantia de qualidade para o consumidor e de mercado para o produtor. "Para vender bem, é preciso certificação e associativismo na comercialização. No caso específico dos supermercados, é preciso qualidade, quantidade e regularidade no fornecimento". Conforme ele, é preciso estar preparado para negociar com as grandes redes, porque elas têm muito poder de fogo, com executivos treinados para negociação vantajosa.

fonte: Revista Safra, fevereiro de 2001, p. 12 e 13.

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