Barra, 21 de fevereiro de 2007
Quarta-feira de Cinzas

Caro Presidente Lula
      Paz e Bem!

                                    Escrevo-lhe hoje, dia em que a Igreja do Brasil lança a Campanha da Fraternidade 2007 sobre a  Vida da Amazônia e toda a sua riqueza humana e natural.

                                   O objetivo desta carta, amiga e fraterna, é retomar  o diálogo  que assumimos juntos por ocasião de nosso encontro no dia 15 de dezembro de 2005 em sua sala de trabalho no Planalto.

                                   Agradeço pelas oportunidades que os representantes da sociedade brasileira e os representantes do governo tivemos de debater assuntos tão importantes como: Projeto de Revitalização do Rio São Francisco, Projeto de Transposição de águas do Rio São Francisco, Projeto de Desenvolvimento Alternativo para o semi-árido brasileiro, na busca de um consenso que soe em acontecer numa sociedade democrática.

                                  Retomo  quando a humanidade, estarrecida, toma consciência das conseqüências do aquecimento global, com impacto em todo o planeta, particularmente na vida de bilhões de seres humanos, inclusive na já historicamente oprimida e humilhada população nordestina. O nordeste brasileiro vai ficar mais quente, estiagens mais longas, inundações mais arrasadoras, mais dificuldades de se viver.

                                  Retomo  quando o senhor fala em iniciar as obras de transposição, consumindo inicialmente 6,6 bilhões de reais, mais de 50% de todo o orçamento destinado a recursos hídricos no Programa de Aceleração de Crescimento (PAC).

                                  Retomo quando o Tribunal de Contas afirma publicamente, em seu relatório, que o Projeto de Transposição das Águas do São Francisco não atinge o número de municípios e de pessoas que  afirma atingir.

                                  Retomo quando a Agência Nacional de Águas (ANA), organismo de Estado, criado  para pensar  estrategicamente o uso da água no Brasil, propõe 530 obras para solucionar  os problemas de abastecimento em todos os núcleos urbanos acima de 5.000 (cinco mil) habitantes do semi-árido brasileiro até 2015. Essas obras beneficiariam as populações mais necessitadas, e custaria 3,3 bilhões de reais, portanto, mais baratas, mais abrangentes, mais eficientes que qualquer obra de transposição.

                            Retomo quando o Rio São Francisco está cheio e sua população ribeirinha, a quinhentos metros do rio, passa sede, como mostrou nessa semana o Jornal Nacional.

                            Retomo quando menina sem-terra, depois sem-água, morreu afogada num canal que supre  os perímetros irrigados de Petrolina, por ter ido “roubar” água para matar sua sede e de sua família.

                            Em nosso encontro, acima referido, o senhor me disse que “não seria louco de levar essa obra à frente se apresentássemos uma alternativa melhor”. Agora, somando as obras propostas pela ANA juntamente com o trabalho de captação de água de chuva desenvolvido pela Articulação do Semi-Árido (ASA) no meio-rural, o senhor tem uma escolha muito melhor, pela qual realmente seria considerado um governante único no nordeste brasileiro, sua terra natal.

                           Não faltam alternativas. Falta uma decisão política.

                           Senhor presidente, sempre vestimos sua camisa. Ainda estamos vestidos nela. Nossa contribuição de fiel militante da causa do povo é para que o senhor seja verdadeiramente aquilo a que se propôs, o de ser o  presidente dos pobres deste país.

                           Receba nossa saudação amiga e fraterna, com os votos de uma Feliz e Santa Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

                                                                                         Dom Frei Luiz Flávio Cappio,OFM
                                                                                          Bispo Diocesano de Barra - Bahia

 
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