Biomassa e estoque de carbono de florestas tropicais primárias e

Biomassa e estoque de carbono de florestas tropicais primárias e secundárias 1

Rafael de Paiva Salomão 2

Daniel C. Nepstad 3

Ima Célia Guimarães Vieira 2

RESUMO

            A conversão das florestas tropicais primárias em ambientes mais simples, contribui significativamente no aumento de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, acarretando importantes variações climáticas, sobretudo no ciclo hidrológico. As estimativas recentes indicam um acréscimo líquido de 3,2 Gt ano-1 [1 Gt (gigatonelada) = 109 T (toneladas) de carbono, ou 1 bilhão de toneladas) de CO2 na atmosfera, sendo que emissões líquidas de CO2 para o ano de 1980, devido ao desmatamento, foram da ordem de 1,8 Gt ano-1 enquanto a queima de combustíveis fósseis libera 5,0 Gt ano-1. Para melhor entender as emissões de carbono para a atmosfera é necessário que se responda as seguintes questões: (1) qual o estoque de carbono contido na biomassa de floresta primária densa?, e (2) quais as taxas de acúmulo do carbono das florestas secundárias de diversas idades? Para responder a estas questões, medidas de biomassa vegetal foram efetuadas em uma área agrícola abandonada e em um fragmento de floresta tropical primária densa, localizadas no Município de Peixe-Boi, Estado do Pará. Em três hectares (ha) de floresta floresta primária, foi quantificada a biomassa de árvores com diâmetro a 1,30 metros do solo (Dap) igual ou superior a 10 cm e em 0,6 ha as árvores com Dap entre 5,0 cm e 9,9 cm. Em florestas secundárias com diferentes idades de abandono, ou pousio, (5, 10 e 20 anos) foram amostradas, em 0,25 ha, as árvores com Dap igual ou superior a 5 cm. Dados sobre a abundância (nº de indivíduos ha-1), a riqueza (nº de espécies área-1), a área basal (m² ha-1) e o volume de madeira (m³ ha-1) foram obtidos para cada área amostrada. Os valores da biomassa aérea viva (T ha-1) e da biomassa total (T ha-1) foram calculadas através de equações alométricas. A estrutura diamétrica e altimétrica dos indivíduos dos ecossistemas amostrados foram, também, previamente analisadas e discutidas. A biomassa total estimada (peso seco) para a floresta primária foi de 388 T ha-1  sendo 267 T ha-1  referentes à biomassa aérea, 68 T ha-1  a biomassa subterrânea e 53 T ha-1  a biomassa morta. O estoque de carbono calculado foi de 194 T ha-1. Em florestas secundárias de 5, 10 e 20 anos foram estimadas 13, 44 e 82 T ha-1 de biomassa aérea respectivamente, indicando um incremento médio de 4 T ha-1 ano-1. Tal incremento implica numa retirada de 2 T ha-1 ano-1 de carbono da atmosfera, através da fotossíntese. A análise preliminar do acúmulo de biomassa e do estoque de carbono nestes ecossistemas, demonstra que seriam necessários cerca de 90 anos para que capoeiras de até 20 anos reabsorvam (via fotossíntese), cerca de 180 milhões de T de carbono liberados para a atmosfera através da substituição dos 930 mil (ou 98%) de floresta primária que originalmente recobriam a região Bragantina, no nordeste do Pará – a mais antiga área de colonização agrícola da Amazônia brasileira.

CONCLUSÕES

1.      Os distúrbios biológicos e ecológicos, de maneira ampla, causados pela atividade antrópica nas florestas tropicais úmidas começam a ser melhor entendidos num contexto global. Tais florestas desempenham, entre outros, serviço ecológico fundamental no ciclo hidrológico e na temperatura do planeta, sendo também reservatórios naturais renováveis de carbono – de grande importância no efeito estufa. As florestas secundárias (em crescimento), subseqüentes à substituição das florestas primárias têm, também, importância crucial neste contexto por seqüestrarem da atmosfera parte significativa do carbono liberado neste processo.

2.      A biomassa total (Dap³ 5 cm) da floresta primária estimada neste trabalho para o Município de Peixe-Boi, foi de 388 T ha-1 , sendo 335 T ha-1 referentes a biomassa viva e 53 T ha-1 a biomassa morta. A compartimentação da biomassa aérea em classes de DAP é relativamente harmoniosa, ou seja, as árvores pequenas (baixa biomassa) ocorrem com alta abundância. O estoque de carbono destas florestas é da ordem de 194 T ha-1. A biomassa aérea de capoeira de 5, 10 e 20 anos foi estimada em 13, 44 e 81 T ha-1, respectivamente, gerando um incremento médio no acúmulo de biomassa de 4,0 T ha-1 ano-1. Conseqüentemente, tais ecossistemas devem retirar anualmente, via fotossíntese, cerca de 2 T ha-1  de carbono da floresta.

3.      Houve uma liberação bruta de algo em torno de 180 milhões de toneladas de carbono para a atmosfera através da substituição de florestas primárias desta região. Numa escala temporal, seriam necessários cerca de 90 anos para reabsorção deste carbono, através da fotossíntese das florestas secundárias se lhes fossem destinadas 100% da área originalmente coberta pelas florestas primárias. Adotando-se o incremento de 4 T ha-1 ano-1  no acúmulo de biomassa por capoeiras jovens, o potencial ´para retirar carbono da atmosfera é da ordem de 2milhões de T ano-1  

4.      No contexto amazônico, os dados ora apresentados precisam ser mais discutidos na questão do entendimento de sua importância para o efeito estufa. A região Bragantina é singular em relação às demais áreas da Amazônia pois estas só foram desmatadas mais recentemente (± nos últimos 30 anos) enquanto àquelas o foram a mais de 125 anos e submetidas a mais de uma dezena de sucessivos ciclos de agricultura migratória (corte ® queima ® plantio ® abandono ® corte ® queima ®...). Neste sentido, as taxas de acúmulo de biomassa da Bragantina constituem exemplos do extremo mais baixo, ou seja, o crescimento da vegetação desta região não oferece uma boa indicação da média para a Amazônia brasileira. outrossim, demonstra, como a se manter práticas inadequadas de manejo dos recursos, o ambiente se degrada afetando todo o sistema ecológico.

 

1 Floresta Amazônica: Dinâmica, Regeneração e Manejo. Eds: C. Gascon & P. Moutinho. INPA, Manaus, 1998. 373p. il. Capítulo publicado também na Rev. Ciência Hoje, 21(123):38-47, ago/1996, sob o título ‘Como a biomassa de florestas tropicais influi no efeito estufa?

2 MCT - Museu Paraense Emilio Goeldi – Deptº de Botânica, C.P. 399, CEP 66017-970, Belém, Pará. Fax: 0xx 91 274-2967 Fone: 0xx91 217-6093 – E-mail: [email protected]

3 The Woods Hole Research Center – USA.

[Banco de Dados]

Orgânico

Papers     Associe-se

Rodapé