Destruição de pradarias marinhas alimenta mudança climática, diz estudo

Madri, 19 mar (EFE).- As selvas são os grandes 'pulmões' do planeta, mas não os únicos; no oceano, as pradarias marinhas têm um papel essencial na captura de dióxido de carbono (CO2).

Agora, um estudo adverte que a proteção é determinante, não só para combater a mudança climática, mas para não acelerá-la ainda mais.

O trabalho, publicado nesta segunda-feira na revista "Nature Climate Change", foi liderado por pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia Ambiental (ICTA) da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB, a Espanha) e da Edith Cowan University (EQU), da Austrália.

A vegetação dos terrenos úmidos, como pradarias marinhas e mangues, ocupa apenas cerca de 2% da superfície dos fundos marítimos de todo o mundo, mas são responsáveis pela metade da transferência de carbono aos sedimentos oceânicos.

Este carbono, chamado carbono orgânico ou carbono azul, é o dióxido de carbono capturado e armazenado por estas plantas durante milhares de anos.

Para determinar melhor o valor destes ecossistemas, há cinco anos, vários centros de pesquisa australianos iniciaram o 'Coastal Carbon Cluster', um projeto liderado pelo pesquisador espanhol Carlos Duarte, que pretende calcular quanto carbono orgânico armazenam os ecossistemas marítimos deste país, onde está localizada a baía Shark Bay, Patrimônio da Humanidade pelo seu grande valor ambiental e ecológico.

De fato, com seus 4,3 mil quilômetros quadrados de pradarias, Shark Bay é o maior ecossistema do mundo deste tipo e contém o 1,3% de todo o carbono orgânico das pradarias marinhas. "É o que chamamos um 'hot spot' de sequestro de carbono", explica à Efe Ariane Arias-Ortiz, primeira autora do trabalho.

E da mesma forma que outras plantas, essas pradarias fazem fotossíntese e absorvem e armazenam CO2.

Mas no verão de 2010, Shark Bay foi afetada por uma onda de calor marinha sem precedentes que aumentou a temperatura da água em quase 4 graus centígrados acima da média durante dois meses.

Em consequência do evento climático, as pradarias da baía australiana (formada principalmente por Amphibolis antarctica) foram muito afetadas: algumas zonas perderam 90% da massa vegetal mas, em conjunto, calculou-se que mais de um terço dos gramados densos tinham se degradado (22% desapareceram e 9% das pradarias densas se transformaram em gramados poucos densos).

"Quando ocorre um fato como o de Shark Bay, não só se perdem as pradarias como sumidouros de CO2, mas o carbono acumulado durante milhares de anos é liberado à atmosfera em forma de dióxido de carbono durante a decomposição da matéria orgânica armazenada nos solos das pradarias", adverte o pesquisador da EQU e coautor do trabalho, Oscar Serrano.

Para o estudo, os cientistas tomaram amostras dos sedimentos marítimos em mais de 50 localizações de Shark Bay e, usando um modelo de cálculo similar ao publicado por Catherine Lovelock, da Universidade de Queensland, calcularam as emissões de CO2 que este ecossistema liberou após a onda de calor.

Os pesquisadores conseguiram determinaram que a perda das pradarias marinhas teria libertado à atmosfera cerca de 9 milhões de toneladas métricas de CO2, o equivalente à produção anual de emissões de 800 mil lares, duas centrais elétricas de carvão ou 1,6 milhão de automóveis durante um ano.

Assim, o estudo concluiu que, apesar de ser um dos enclaves mais protegidos do planeta, a onda de calor teve um impacto tremendo sobre este ecossistema, que desde então, emitiu à atmosfera todo o dióxido de carbono que tinha capturado no último século.

"A mudança climática é um fenômeno que afeta todos os ecossistemas, por isso é tão importante tentar aplicar medidas de conservação como prevenir estes impactos por causa das emissões que libertam com a destruição destes hábitats", especifica Arias-Ortiz. EFE

ecg/ff

Fonte: EFE em 19-03-2018



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