Usina fechada, lembrança de um tempo em que o mundo se pretendia melhor

Caravana cresce e Lula diz que só “coração de corintiano” para aguentar tanta emoção. A caminho de Juazeiro, parou para protestar contra desativação de unidade de biocombustível da Petrobras

Juazeiro (CE) – As viagens da Caravana Lula pelo Brasil talvez possam ser inseridas em algum tipo de livro dos recordes. Como diria o ex-presidente, “nunca antes na história desse país” se levou tanto tempo para percorrer um trajeto. O desta quarta-feira (30), 14º dia de viagem, deveria levar em torno de cinco horas para vencer os 326 quilômetros que separam Quixadá, no Sertão do Ceará, de Juazeiro do Norte, na região do Cariri. Mas durou cerca de nove horas, com oito paradas em estradas e ruas tomadas pelo povo, que não arreda pé enquanto Lula não desce para pelo menos um aceno e uma palavra de carinho.

E ele não se furta a isso. A primeira parada não prevista foi por volta de 11h, um protesto de petroleiros e moradores da região tomava o portão da Unidade de Produção de Biodiesel de Quixadá, fechada em outubro de 2016, cinco meses depois de Michel Temer colocar Pedro Parente para presidir a Petrobras.

Silvano Lima trabalhava na usina desde 2008. “Foi quando este homem de coragem, nordestino, a inaugurou. De lá para cá já tivemos mais de 30 mil agricultores produzindo mamona e vendendo para a Petrobras Biocombustível. Embora não fizesse o biodiesel, a companhia fazia gestão de estoque e ganhava lucro em cima da mamona. Também temos 800 catadores de lixo que catam óleo de gordura residual da região metropolitana, matéria prima aqui para a usina. E mais 300 piscicultores do projeto Curupati-Peixe, no açude Castanhão, em Jaguaribara, que também produzem, por meio de vísceras de peixe, o óleo para fazer o biodiesel”, relatou. “A usina já empregou, na sua construção, mais de 5 mil trabalhadores. Durante seu pico de produção – que hoje é de 100 mil toneladas de óleo por ano – já teve mais de mil empregados. Próximo ao seu fechamento ainda tinha 200, contratados aqui de Joatama, conteúdo local.”

Lula lembrou que o mundo caminhava muito rapidamente para ter cada vez mais energia renovável e limpa. E esse foi um dos objetivos da construção da usina. “O Brasil tem um potencial extraordinário de produzir biodiesel para misturar no nosso óleo diesel. Da mesma forma, etanol para misturar na gasolina. A nossa ideia e o nosso sonho, quando a gente construiu essa empresa, era fazer uma combinação perfeita entre o agricultor familiar e o trabalhador da cidade para que se contratasse milhares de pequenos produtores.”

E recorda dos debates à época. “Tínhamos possibilidade de fazer o bioediesel de sebo, de mamona, mas é um óleo muito precioso, utilizado para cosméticos, para aviação e nem sempre tem preço acessível para produzir biodiesel”, afirmou. “E a gente não conseguiu, através da Embrapa, a capacidade produtiva que é necessário ter. A gente tinha possibilidade de fazer de pinhão manso, que é uma planta que se pode colher dela por muitos e muitos anos. Mas não sei porque, parece que parou essa experiência. Podia fazer de óleo de soja, de caroço de algodão, de girassol. Mas a coisa mais produtiva é o dendê.”

Lula falou de mais um sonho que não se concretizou e ainda parece longe de se tornar realidade, para a tristeza da humanidade. “O mundo inteiro tinha assumido o compromisso que até 2020 iriam adicionar mais biodiesel e mais etanol tanto à gasolina, quanto ao óleo diesel.  Essa empresa, quando vim inaugurar, era efetivamente um sonho, para poder desenvolver as pequenas e médias cidades do nordeste brasileiro, para que a gente pudesse ter a energia mais limpa do mundo, não apenas para a gente utilizar, mas para exportar também.”

A alegação da Petrobras Biocombustível para o fechamento, revela Silvano, foi de que a matéria prima vinha de muito longe e com isso não dava lucro. “Mas esse governo golpista quis fechar a usina porque ela politicamente representa um projeto que nasceu da grande sacada desse homem aqui (abraçando Lula) que é unir o ambiental, o tecnológico e o social. Gera emprego, renda e um combustível renovável”, critica, contando que todos os esforços foram feitos, no final do ano passado, quando foi anunciado o fechamento. “O governo Camilo Santana (PT) de pronto acenou com a redução de 99% do ICMS. Só isso, já colocava a usina no patamar de competitividade. Mas foram irredutíveis”, lamenta.

Segundo Silvano, a usina de Quixadá é a que tem o maior mercado. Todo o biodiesel dela é vendido do Rio Grande do Norte até o Pará.  “E é a única nesse raio de 5 mil quilômetros que produz biodiesel, com exceção de uma no Tocantins, que é bem menor. E ela tem a última tecnologia em flexibilidade: qualquer óleo que chega vira biodiesel.”

Ele diz que hoje ainda há 22 mil agricultores contratados, “sem poder honrar com a venda da sua produção”, mais os 800 catadores e os 300 piscicultores. “Esse projeto é vitorioso, nos não aceitamos o fechamento e nós temos fé e força que hoje nos estamos reinaugurando, pela luta, esta usina.”

Lula pediu aos trabalhadores que se mantenham dispostos a brigar. “Vamos fazer a denúncia onde for possível. E os companheiros da Petrobras têm de fazer a denúncia. Porque a Petrobras, embora seja uma empresa de petróleo, óleo e gás, ela é mais do que isso: é a cabeça pensante da política de energia limpa nesse país”, disse, sob fortes aplausos. “Eu parei aqui só pra dizer: eu tava com vocês antes, tava com vocês quando inaugurou e tô mais com vocês agora que ela fechou.”

Um marco no sertão

E conforme passam os dias e a caravana segue pelo sertão nordestino, mais gente parece querer estar com Lula e ele com mais gente.

Em Banabuiú, contou sobre sua passagem pela usina aos milhares de trabalhadores que fechavam a rua por onde a caravana deveria passar. “Lamentavelmente, a  irresponsabilidade da direção da Petrobras fechou. Eles não entendem que usina não é só parede, máquina, mas são homens e mulheres desse país que precisam trabalhar para sustentar sua família.”

Como tem feito em suas paradas, voltou a pedir ao povo que não desanime diante das dificuldades. “Não percam a esperança. A minha geração não acreditava que um filho de pobre podia fazer universidade. A gente provou que todo mundo pode vencer na vida”, perguntando de quem era a criança que estava com ele. “Se não tiver dono, levo embora”, brincou.

“Eu não penso mais em mim, que tenho mais de 70 anos, mas nessa criança que estava no meu colo, aquela outra que está ali no colo da mãe. A gente precisa garantir que elas tenham sonhos, porque sem sonho a gente não vira nada.” Agradecido pela acolhida, disse que queria beijar cada coração daqueles que o assistiam. “Esteja onde estiver, eu quero que saibam: vocês têm um brasileiro e nordestino a defender vocês e o Nordeste.”

Talvez por isso, a passagem do ex-presidente esteja sendo considerada um grande acontecimento para esse povo. “Fica um marco no nosso sertão central”, disse Edna Carla de Oliveira Souza, dona de casa de 31 anos, em Banabuiú, segunda parada no dia. “O Lula ajudou muito os pobres a sair da miséria com o bolsa família, que é uma coisa que muita gente agradece. É uma passagem que deixa marcas. Nós estamos passando um momento muito difícil pela seca, mas vamos sair dessa crise trazendo ele de volta para mudar o Brasil de novo”, disse a mãe de dois filhos, beneficiária do bolsa família.

Injeção de ânimo

Raimunda Alves da Costa, de Fortaleza, está seguindo a caravana desde Morada Nova. A comerciária aposentada é uma das centenas de pessoas que passaram a acompanhar com seus carros e tomam as cidades onde serão realizados os atos. O presidente que em seu governo proporcionou um grande período de crescimento e desenvolvimento para o Brasil, agora consegue, apenas com sua passagem, animar a economia dessas regiões. A cidade de Quixadá, por exemplo, tinha 100% de seus hotéis ocupados em função da caravana.

“Desde que Lula vive a política, acompanho”, conta Raimunda, durante a terceira parada extra da caravana, em Solonópolis. “E esse momento pra mim é muito importante e para todo povo brasileiro. É o momento em que estamos passando muita dificuldade, muita desesperança. E o Lula vem e traz essa esperança na palavra. Esse senhor de 71 anos vem aqui, andando de ônibus nesse Nordeste quente, e traz essa esperança para esse povo nosso, sofrido. E a gente sabe, essa esperança vai se transformar em vitória, em realidade.”

O dia avançava quente e a caravana também, mansamente, com todo respeito ao ritmo do povo. Depois de Solonópolis, a comitiva ainda fez paradas no distrito de São José, Quixelô, Cascudo e Iguatu.

Isabela Rodrigues, 16 anos, conta que foi uma das organizadoras da manifestação que parou a caravana em São José. A estudante segurava um cartaz com um grande coração. “Eu amo o Lula porque graças a ele milhões de brasileiros pobres podem ser formar e ser alguém na vida.” Parece clichê, mas na vida real faz toda diferença. “Lula mudou muita coisa na vida da minha família. Pobre hoje em dia tem direito de tudo. Direito de falar, de ser alguém.”

Às 18h, em Cedro, oitava parada desde Quixadá e ainda a cerca de 90 quilômetros do destino, Crato, colada a Juazeiro – onde um ato estava previsto para o Centro de Convenção do Cariri –, Lula não se conteve: “Se eu não fosse corintiano e não tivesse o coração forte, ia morrer de tanto amor, do carinho que tenho recebido do Ceará”.

Antigo triângulo chamado de Crajubar – de Crato, Juazeiro e Barbalha –, a Região Metropolitana do Cariri ganhou esse status em 2009 e passou a agregar nove municípios, que somam 600 mil habitantes, sendo 270 mil em Juazeiro do Norte. No sul do estado, a área tem divisas com Pernambuco, Paraíba e Piauí, para onde a caravana parte nesta quinta 31.

Ainda na noite de ontem, Lula fechou o dia intenso com mais um título de Doutor Honoris Causa, desta vez concedido pela Universidade Regional do Cariri, no Centro de Convenções de Crato, onde foi realizado também um ato pela democracia. A região tem o maior polo universitário do interior do Ceará, com 104 cursos superiores.

Fonte:por Cláudia Motta, especial para a RBA em 30/08/2017

 


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