O valor dos dejetos na pecuária leiteira

Com um biodigestor, fazenda de leite em Carambeí, PR, gera até 60% da energia que consome

Por Sérgio de Oliveira

Enquanto dirige por estradinhas vicinais do município de Carambeí, PR, um dos mais importantes e avançados polos de pecuária leiteira do país, Roderik Wouter van der Meer – ou Rik, como é conhecido o jovem de origem holandesa – conta como evoluiu a parceria familiar que culminou na Fazenda Vale do Jotuva, uma referência em produção de leite, grãos e gestão ambiental na região. Seu pai, Johannes van der Meer, e o cunhado Jacob Vink uniram terras, forças e habilidades, 45 anos atrás, para formar a propriedade, hoje administrada em sociedade por Rik, 30 anos, e dois primos, os irmãos Robin e Peter Vink, filhos de Jacob.

Logo na entrada da fazenda, na parte mais alta do terreno, encontram-se silos bunker e silos-bag, galpão para guardar pré-secados, rações e minerais e um edifício que abriga a sala de ordenha duplo 20, dois tanques de armazenamento, escritório e instalações para funcionários. Alguns metros adiante ficam os barracões onde estão confinadas as vacas em lactação, distribuídas em várias alas de free stall e 1 compost barn. No free stall elas são agrupadas por nível de produção: quem produz mais recebe uma dieta mais reforçada em energia e minerais. No compost barn ficam as vacas primíparas ou com algum problema de locomoção. A uns 200 metros vê-se outro barracão, onde vacas no pré-parto e novilhas estão confinadas. Vacas secas ficam no pasto; as bezerras, em sistema de semiconfinamento.

Numa depressão do terreno vê-se um imenso biodigestor e alguns tanques cheios de um líquido escuro. É ali, no processamento dos cerca de 50 mil litros/dia de dejetos produzidos pelos animais confinados, que está o que Rik considera o grande diferencial da fazenda. Com capacidade para 2 milhões de litros, o biodigestor provê 40% da energia gasta na propriedade – um outro gerador foi instalado após nossa visita para elevar a produção de energia própria para 60%. “A ideia do biodigestor veio pela necessidade de que parte da energia fosse gerada na propriedade. Por ser um local afastado, a rede elétrica não suporta toda a demanda. Nos horários de pico precisaríamos de algum gerador. Além disso, há o aspecto ambientalmente correto e sustentável”, diz Rik.

Antes de chegar ao biodigestor, as fezes, urina e água de limpeza retiradas do free stall pelo movimento constante do scraper (rodo mecânico) são canalizadas até um tanque menor. Dali, passam por um equipamento de separação dos sólidos, o que gera uma torta – 15 a 20 metros cúbicos/dia – que é distribuída nas lavouras, a cada três anos (10 m³/ha). A torta tem composição equivalente a 3,5,5 de NPK. Só então o líquido resultante, que passa ainda por um tanque de decantação para sedimentação da areia, vai para o biodigestor.

Após a fermentação e liberação do metano que segue para os geradores, o líquido remanescente fica armazenado em uma lagoa de contenção com capacidade para 15 milhões de litros e é utilizado na fertirrigação das lavouras (150.000 litros por hectare, três vezes ao ano). Rik explica que faz adubação química nas plantações, e que os e?uentes do biodigestor servem para enriquecer o terreno com matéria orgânica, uma vez que o solo, segundo ele, é extremamente pobre. A combinação adubação convencional/fertirrigação tem contribuído para aumentar a produtividade das lavouras: este ano, por exemplo, foram colhidos 5.800 kg de soja por hectare, quase o dobro da média nacional e bem acima da média paranaense, de 3.600 kg. A melhoria do solo também ajuda nas outras culturas: nesta safra, o azevém deu três cortes, aumentando o volume de pré-secado da forrageira.

Engrenagem

O movimento de máquinas e funcionários na fazenda é contínuo. Dezoito funcionários atuam na pecuária, em dois turnos, e cinco na agricultura. Rik explica como funciona a organização das tarefas: ele é responsável pela produção agrícola; o primo Robin cuida da produção de leite; e Peter cuida para que tudo funcione à perfeição – é o responsável pela manutenção das instalações, máquinas e equipamentos, tanto da pecuária leiteira como da agricultura.

A gestão é facilitada pelos vários painéis de verificação de atividades espalhados pelos corredores e no escritório, trazidos por Robin após ter concluído o curso de MDA da Clínica do Leite, da Esalq. Ali, são anotadas todas as ocorrências da fazenda. Os funcionários reúnem- -se diariamente para preencher os campos de controle e discutir as atividades. Na falta de um, o outro saberá exatamente o que fazer. Assim também com os três só- cios: Robin, por exemplo, estava no Rock in Rio por ocasião de nossa visita, mas Rik sabia exatamente o que fazer para que a produção de leite seguisse sua rotina.

Rotina que, no entanto, deve ser alterada em breve. Os primos já projetam a ampliação do negócio. Está nos planos a construção de mais um free stall para elevar o número de vacas em lactação para 950 e atingir a produção de 40 mil litros/dia. Para aumentar a produtividade, pretendem usar sêmen sexado na cabeceira do rebanho, puxando ainda mais a qualidade genética.Também pensam em vender parte do material sólido resultante da separação dos dejetos como adubo orgânico e instalar um filtro para separação do enxofre, que também será comercializado. Mais adiante, querem instalar painéis solares na cobertura dos barracões para tornar a propriedade autossuficiente em geração de energia. “A pecuária tem um potencial imenso de produzir energia, falta crédito específico para isso”, conclui Rik.

Dados
Total de animais: 1.100
Vacas em lactação: 530
Produção diária: 19 mil litros de leite
Produção média: 36 litros/vaca/dia
Ordenhas: três
Atividade agrícola: 670 hectares de lavoura
Verão: soja, milho para silagem, feijão e sorgo
Inverno: aveia preta, aveia branca e azevém para fazer pré- secado

Portal DBO - 06/09/2018

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