Biocobiça

Biocombustíveis podem transformar o país em potência agrícola. Mas é preciso atenção às florestas, aos direitos do trabalhador rural e ao avanço estrangeiro

A agricultura brasileira foi parar na imprensa mundial. O aumento dos preços agrícolas e as projeções de crise no abastecimento de alimentos têm colocado o avanço dos biocombustíveis na ordem do dia: o etanol e o biodiesel podem provocar crise agrícola no mundo? Haverá crise de produção de alimentos? O Brasil é solução ou problema? Parte das respostas da polêmica está nos Estados Unidos e na União Européia, as maiores economias e também os maiores poluidores. A disparada do preço do petróleo – de US$ 35, antes da invasão do Iraque pelos EUA, para acima dos US$ 120 – fez com que os países mais ricos buscassem alternativas de energia.

Nos EUA, hoje, um quarto da colheita de milho vira etanol, reduzindo as exportações da commodity, bastante usada em rações de animais. Os preços já subiram mais de 10% neste ano. Os EUA planejam reduzir em 20% o consumo de gasolina nos próximos dez anos e não têm como atender a essa crescente demanda por etanol. Suas áreas plantadas estão no limite. Na União Européia o panorama é semelhante. Produzir etanol a partir de trigo ou milho implicaria comprometer 70% da área plantada. E forçaria o bloco a aumentar suas importações desses alimentos e a deixar de produzir um volume importante das duas commodities.

No Brasil é diferente. O país utiliza apenas 1% da área destinada à agricultura com a produção de etanol. E a produtividade do etanol de cana é muito maior que a do milho. “Existem poucos países no mundo que ainda possuem áreas não cultivadas aptas para a agricultura e 90% estão na América do Sul e África, sendo que o maior destaque é o Brasil. Não existem terras de reserva na Ásia”, observa o pesquisador Dante Scolari, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Estima-se que a nova fronteira agrícola do país poderia acrescentar 100 milhões de hectares à agricultura, quase o dobro dos 60 milhões de hectares em que hoje estão plantadas mudas de soja, milho, trigo e cana. “O Brasil tem tudo para ser potência em agroenergia, criando condições para expandir sua produção sem gerar pressões sobre os alimentos”, analisa o embaixador Rubens Ricupero, ex-ministro do Meio Ambiente e da Fazenda do governo Fernando Henrique e atualmente diretor da Faculdade de Economia da Faap.

Indústrias de fertilizantes estimam que a tendência é que nos próximos 15 anos cerca de 30 milhões de hectares ocupados com pastagem para gado sejam transferidos para a atividade agrícola. Parte deles poderia ser usada pelo etanol, o que propiciaria ao Brasil assumir o abastecimento de 5% do etanol consumido nos países mais ricos. Com maior estoque de reservas a cultivar, o país, já maior fornecedor de carnes, açúcar, soja, café, suco de laranja, se tornaria uma potência dominante no setor agrícola.

Boa parte da alta de preços dos bens agrícolas a que o mundo assiste não ocorre pelo avanço do etanol ou biodiesel, mas sim pela alta do petróleo e pela desvalorização do dólar. A alta do combustível alimenta o preço dos fertilizantes e das embalagens plásticas. O dólar fraco faz com que as commodities agrícolas, cotadas na moeda americana, valham menos, o que força os produtores a elevar os preços para compensar a perda.

Os países ricos temem que sua dependência de alimentos do Brasil cresça. Simultaneamente, grandes exportadores de petróleo e grandes petroleiras temem uma queda nas vendas. Portanto, também têm interesse na polêmica. “O Brasil está sendo colocado como vilão, quando na verdade pode ser herói. Para avançar nesse jogo o país terá de fazer concessões, abrindo mais alguns setores da economia e reduzindo as tarifas industriais”, diz um diplomata que atuou nas negociações comerciais no fim da década de 1990.

Para melhorar a imagem dos biocombustíveis e mostrar seu grande potencial inexplorado na área, o governo brasileiro investirá em uma ofensiva pró-etanol. A intenção é viabilizar uma campanha em publicações estrangeiras apontando as virtudes do produto e o fato de o Brasil conseguir abastecer um grande número de veículos movidos a biocombustíveis sem criar pressões sobre sua produção de alimentos.

Tem boi na selva

Mas nem tudo conspira a favor do país. As mudanças climáticas atraem atenções de ambientalistas e cientistas para a Amazônia, onde são absorvidos todos os anos de 100 milhões a 400 milhões de toneladas de gás carbônico, o principal vilão do aquecimento. “O tema da bioenergia ganhará cada vez mais relevância no mundo inteiro, e o Brasil tem papel central nessa discussão. Não se teme que o etanol avance na floresta amazônica, mas a cana poderá ocupar tradicionais áreas de pecuária do centro-sul do país e empurrar a criação de gado para as franjas da Amazônia, o que traria discussões sobre o avanço do desmatamento”, diz o presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais e coordenador do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (Gacint-USP), Gilberto Dupas.

Estudo da ONG Amigos da Terra reforça o receio. Em 2007 a região amazônica ultrapassou os 10 milhões de abates bovinos, um aumento de 45% em três anos. Vencida a fronteira do Centro-Oeste, produtores rurais já começam a expandir fazendas na Amazônia, preparando nos próximos anos seu terreno para a pecuária extensiva, o que traz pressões sobre o ecossistema local. Simultaneamente, pesquisadores de grandes empresas que atuam em biotecnologia têm investido pesado para desenvolver clones de mudas de cana mais resistentes ao Cerrado, o que empurraria culturas tradicionais da região para o norte do país.

A soja, com um custo de produção muito mais baixo que o da mamona, é outra preocupação. O grão já é matéria-prima de três em cada quatro litros de biodiesel produzidos no país e estima-se que cerca de 5% dos 50 milhões de toneladas que serão colhidos este ano têm fins energéticos. O percentual ainda é pequeno e não interfere nas cotações do produto, mas tende a subir.

Como o Brasil está participando ativamente da construção de um mercado mundial de biocombustíveis, a tentação de ampliar o cultivo da soja – para abastecer também os países ricos – é grande. “Se por um lado essa expansão gera riqueza para alguns produtores e divisas com exportações para o país, por outro intensifica impactos como o desmatamento, a contaminação de rios, a concentração da terra e a exploração do trabalhador, principalmente em regiões do Cerrado e da Amazônia”, afirma Marcel Gomes, coordenador de um relatório sobre o tema para a ONG Repórter Brasil, cujos pesquisadores rodaram 19 mil quilômetros em dez estados no início deste ano para analisar o impacto de algumas culturas no Brasil. “Algumas cidades já começam a ter sua vida influenciada pela soja. Em Taiangá (MT), primeiro veio a indústria madeireira, de desmatamento, e depois começaram as plantações de soja. O prefeito é da indústria madeireira”, diz Gomes.

Esse acréscimo da produção de soja e o acirramento da competição entre fazendeiros para obter um maior espaço no mercado internacional poderiam também ter repercussões sobre a qualidade do emprego rural. Com baixo índice de emprego, o nível de sindicalização e associação dos trabalhadores da soja é baixo. Propriedades rurais atrasadas do ponto de vista tecnológico poderiam compensar essa diferença piorando as condições oferecidas aos trabalhadores, frisa o estudo da ONG, divulgado em abril (www.reporterbrasil.org.br).

Gilberto Dupas, da USP, observa ainda uma internacionalização mais intensa do setor agrícola brasileiro nos próximos anos, o que inclui a associação de empreendedores de capital local com internacionais e a compra direta de terras por estrangeiros. Preocupada com o custo dos alimentos e com dificuldades para expandir as terras de lavoura em proporções necessárias para atender à sua gigantesca demanda, a China tem prospectado terras na África e na América do Sul. A intenção é investir nesses países adquirindo diretamente as terras e tendo total poder sobre elas.

Grandes empresas estrangeiras vêm investindo pesado no Brasil de olho nos países que desejam aumentar o uso de biocombustível em suas frotas. Uma das maiores petroleiras do mundo, a inglesa British Petroleum (BP) anunciou em abril ter adquirido 50% da Tropical Bioenergia S/A, empresa que pertence aos grupos nacionais Santelisa Vale, segundo maior sucroalcooleiro do país, e Maeda, um dos maiores produtores de algodão. Essa internacionalização pode reduzir a influência dos proprietários brasileiros. “Movimentos como esse poderão abrir a necessidade de discussão da aquisição de terras por estrangeiros”, alerta Dupas.

por Roberto Rockmann publicado 07/11/2017

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