Orgânico: por quê?

Sérgio Cabral de Carvalho*

Antigamente a agricultura orgânica era vista com reservas e até tratada com displicência por cientistas e agricultores. Uma forte mudança no consumidor,, que já identifica a expansão de doenças como câncer, depressão, Parkinson etc, com o consumo de alimentos contaminados por agrotóxicos, gera forte demanda por alimentos orgânicos. A pequena oferta cria mercado favorável a curto e longo prazos para alimentos orgânicos, fazendo com que produtores e pesquisadores agora busquem soluções ecológicas nos plantios. Entretanto, produtores de leite, suínos, frangos e ovos estão limitados pela indisponibilidade de milho orgânico no Brasil.

A viabilidade do cultivo de milho orgânico, contrariando o senso comum, não é restrita às pequenas áreas familiares e nem depende de muito esterco. Experimentos de mais de 17 anos mostram produtividade orgânica sempre superior à química, superando 8 t/ha. E hoje fazemos uso estratégico de plantas companheiras, bokashe e ativadores biológicos, técnicas mais apuradas para obter alta produtividade com pouco insumo. Vale ressaltar que, por outro lado, na poluente agricultura convencional, de 60 a 80% dos custos são compostos por venenos e adubos químicos, transformando a agricultura num eficiente operário da indústria multinacional, uma agricultura essencialmente dependente e transferidora de renda do campo para a indústria urbana.

No milho orgânico as ervas ditas daninhas são manejadas de maneira mais inteligente e barata, contrariando o absurdo químico que justifica o despejo de enormes quantidades de venenos herbicidas nos solos e rios na agricultura convencional. Para tanto contamos com invasoras escolhidas, sombreamento dirigido e adubação verde, além das modernas roçadeiras de linhas que viabilizam até o plantio direto orgânico em grandes áreas.

É gratificante observar que insetos como lagarta do cartucho e caruncho, transformados em pragas na agricultura química, na plantação orgânica bem conduzida voltam a ser apenas insetos bem comportados. O sucesso está sobretudo no reequilíbrio biológico do solo com o correto manejo da matéria orgânica. Usamos também a diversificação de vegetação com plantas companheiras e protetoras. Em desequilíbrios eventuais na fase de conversão para orgânico temos bom arsenal de insumos naturais como controle biológico, extrato de fumaça e modernos remédios homeopáticos. Segurança de conhecimentos milenares aliados a técnicas de última geração, todas de surpreendente simplicidade.

Como qualquer processo de mudança, optar por métodos orgânicos exige esforço; esforço de pensar e escolher. Pensar, inclusive, na possibilidade de se tornar um produtor mais independente e feliz, mudando de uma agricultura de insumo para uma agricultura de manejo, seja em dez ou dez mil hectares.

(*) Consultor e membro Titular do Colegiado Estadual de Produtos Orgânicos

fonte: Jornal hoje em dia Belo Horizonte, MG, Brasil, Segunda-Feira 29/09/2003 - "Sergio Cabral" <ecologi@terra.com.br>

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