O Potencial Estratégico da Agroecologia, Agricultura Biodinâmica e da Permacultura para o Brasil

Por Mauro Schorr*

De acordo com a experiência de diversos extensionistas e institutos que atuam através da região sul, sudeste, nordeste e norte brasileira, e órgãos federais de assistência técnica principalmente uruguaios e argentinos, é cada vez maior a importância e a aceitação da Agroecologia no Brasil e no mundo na atualidade.

Um relatório técnico do Instituto Biodinâmico de Botucatu (SP), revela que o mercado mundial de produtos orgânicos estava avaliado nos anos de 1980 em aproximadamente 5 bilhões de dólares, e no ano de 1995, somente nos EUA, cresceu para mais de 8 bilhões de dólares, sendo no mundo estimado em torno de 24 bilhões de dólares de movimentação financeira direta, onde até o ano 2.000 espera-se um acréscimo de 20 % ao ano entre novos produtores, aumento das safras orgânicas, biodinâmicas, ecológicas e de recursos. Praticamente todos os governos democráticos do mundo dada a grande economia de energia, maior sustentabilidade ambiental e maior possibilidade de auto-suficiência e segurança alimentar, estão interessados em ampliar uma agricultura empresarial mais natural ou agroecológica.

Estes dados foram coletados em reunião com representantes da IFOAM - a federação internacional de produtores e instituições produtoras orgânicas, que congrega mais de 250 associações espalhadas em mais de 40 países, em SP, no ano de 1994.

No Brasil, já existem mais de 10.000 produtores semi-orgânicos e orgânicos espalhados pelo país : calcula-se que somente 1000 produtores no RS, 1000 produtores orgânicos e semi-orgânicos em SC, 1500 produtores orgânicos e semi-orgânicos no PR, 1500 produtores em SP, 1000 produtores em MG, sendo a maioria não catalogada pelos principais centros agrícolas do país. Estes produtores possuem não somente um apreciável nível técnico de manejo sustentável dos seus recursos naturais, como um nível político de conscientização ecológica bastante elevado e muitos já adotam a maioria das técnicas básicas agroecológicas de produção.

No Rio Grande do Sul, existem iniciativas espalhadas por todo o seu estado, totalizando um volume de comercialização anual em torno de 3.0 milhões de dólares/ano - R$- 200.000.00 reais/mês somente envolvendo a cooperativa Colméia em plena capital do estado, e no estado do Paraná: R$ - 250.000.00 reais/mês envolvendo somente o Instituto Verde Vida entre consumo interno de produtos hortigranjeiros na forma de modernos e muito apreciados restaurantes, feiras de produtos, e também vias comerciais e pioneiras de exportação de soja, milho, girassol, trigo, erva-mate, açúcar mascavo, alêm de sucos, polpas e bebidas fermentadas como vinhos.


Como pode-se observar, nesta luta de estruturação da agroecologia de pelo menos 20 anos no Brasil, muitas ONGs se modernizaram como empresas competitivas e evoluíram o suficiente na área econômica trazendo portanto uma maior segurança de investimento neste setor.


A realidade é que os produtores agroecológicos desde a década de 70 estão sendo organizados por diversas ONGS ambientalistas como a AGAPAN - Associação Gaúcha de Proteção Ambiental, FASE - Pta, Fundação Gaia, Instituto Biodinâmico, Pastoral da Terra, entre outros, que auxiliaram na disseminação das técnicas orgânicas e biodinâmicas de produção, influenciando inclusive a pesquisa e a extenção oficial. Assim, seus produtos agroecológicos possuem um nível de nutrientes mais equilibrados e em maior quantidade. Seus níveis de vitalidade e durabilidade são também destacadamente maiores, o que agrada os produtores e consumidores. Isto já está comprovado a mais de 10 anos pela pesquisa acadêmica, sobretudo francesa e inglesa. É bom observar os destacados estudos do Dr. Claude Albert e do Dr. Francis Chaboussou, na França e do Instituto Emerson College de Biodinâmica, da Inglaterra.


Ocorre que os sistemas de produção baseados na moderna agroecologia possuem técnicas que reestruturam um manejo agrícola correto para a região tropical: mantêm sempre o solo sendo mais protegido das fortes chuvas, enxurradas, onde são enriquecidos seus níveis de fertilidade com o uso de adubos orgânicos como os estrumes e compostos, adubos minerais menos solúveis como os termo-fosfatos e o uso da cobertura de palha ou mulching, a ainda integra-se os cultivos com rotações com adubos verdes e a proteção das áreas verdes.

Isto traz economia aos agricultores, que observam que quando adubam também organicamente seus solos, mantêm o mulching ou a cobertura morta ou de palhada sendo consorciada aos seus cultivos e acabam não utilizando doses maciças de adubos químicos. Seus investimentos de capital e recursos financeiros em adubação e controle de pragas tornam-se ano-a-ano menores desta forma. Os níveis de vitalidade e de fertilidade de seus solos aumentam, trazendo uma maior disponibilidade de fósforo, potássio, nitrogênio, aeração, e retenção de umidade, entre outros fatores benéficos. Suas plantas crescem em ambientes mais sadios, livres de doenças e pragas. Estas técnicas de conservação de solos agregam uma valor econômico indireto à propriedade agrícola, que é valorizada crescentemente, de acordo com a melhoria das condições de fertilidade natural dos solos e uso de modernastécnicas de conservação como o terraceamento, cultivo em nível, reciclagem adequada de matéria orgânica, plantio direto, cultivo mínimo, sistemas agroflorestais e permaculturais, entre outras. Assm não pode-se comparar o valor de uma terra degrada e um solo fertil ou recuperado.Isto é fundamental e um dever ou obrigação para qualquer país do mundo que queira manter e preservar para o futuro seus recursos naturais renováveis. Como se caracteriza-se a base do desenvolvimento sustetável e de moderna e ética economia sustentável.


Este Mulching ou cobertura de palha mantêm o solo coberto retendo a umidade, o que fornece um ambiente ecológico propício a reprodução da microbiologia, que traz nitrogênio, fósforo e potássio na forma orgânica e
enzimática mais disponível às plantas, alêm de ofertar muita vitalidade que é aprisionada por fenômenos de natureza física e termostática de contenção de energia para o solo. “ Quanto mais energia disponível no sistema, mais condições de multiplicação de uma maior atividade biológica mais estável. Esta questão da energia vital ou bio-massa vital é um componente muito valorizado na agricultura biodinâmica e descreve a quantidade de energia vital que possui um ecossistema. Na região do entorno de Brasilia, esta quantidade de energia vital chega em muitos locais a ser mínima. O mesmo ocorre no estado de São Paulo. Isto faz com que surjam inúmeras vossorocas e
problemas erosivos, alêm de ocorrer uma perda no potencial de regeneração natural, diminuição da quebra da dormência de sementes, reprodução e manutenção das cadeias tróficas, etc. Os solos começam a rachar e a perdar
seu potencial de agregação natural. As plantas cultivadas nascem sem tanto vigor e necessitam de doses maiores de nutrientes químicos e orgânicos.Os seres humanos com a ausência de vitalidade necessitam de maiores quantidades
de alimentos, drogas, alcool, cigarros e consumo.

A teoria da Trofobiose de Francis Chaboussou exemplifica através de diversos experimentos científicos que o uso de produtos químicos na agricultura afeta o equilíbrio fisiológico das plantas, fazendo com que produzam uma proteossíntese ou a formação de substâncias calóricas e protéicas em excesso. Como os insetos sugadores são especialistas em processos proteolíticos ou seja, de consumo e de quebra de cadeias protéicas, surge o ataque contra a maioria das plantas cultivadas agroquimicamente, que possuem estas substâncias em excesso na forma de
compostos solúveis em sua seiva.

No Brasil, entre os anos de 1972-1980 elevou-se o consumo de agrotóxicos em quase 450 %, o consumo de adubos químicos em quase 450 %, e isto não trouxe incrementos qualitativos de produtividade. A produtividade das principais culturas aumentou apenas 5 % e paradoxalmente aumentou o número de pragas em mais de 400 %. Estes são os dados obtidos através do IBGE e demonstra que nossa agricultura cresceu em suas fronteiras de colonização, mas não internamente, em termos de produção/m linear - produtividade. Por isto que tornou-se cara e praticamente inacessível à maioria inclusive dos pequenos e grandes produtores, que precisam portanto de ajuda de capital não apenas nacional para o seu desenvolvimento. Na verdade as políticas públicas foram durante décadas sendo manipuladas pela influencia externa e os interesses dos grandes grupos geoeconômicos internacionais, o que levou a nossa nação a possuir a maior concentração de terras do mundo, e que está sendo crescentemente intercionalizada ou sendo cúmplice do desmantelamento de nossa soberania e independência rural aos grande jogos de dependência docapital interrnacional. Podemos afirmar que o grande volume de produtos gerados no Brasil não é nosso, é financiado anos antes, comprado e levado para fora, deixando muito pouco para o nosso esenvolvimento real, pois privilegia os grandes grupos e empresários do nosso pais, que já detêm o capital e as grandes fatias do mercado, e tudo isso porque não sabemos trabalhar com a agricultura e as cooperativas de produtores no Brasil, ainda
depreciamos os agricultores ou não valorizamos seu monumental e sagrado esforço, ou conseguimos sustentar projetos desprovidos de corrupção.

A agroecologia através dos seus sistemas de adubação, manejo não tão intensivo de preparo de solos, seus sistemas de consórcio alelopático e benéfico, possui um nível de ataque de pragas muito menor e uma qualidade de produção alimentar muito maior que o encontrado na agricultura convencional (Primavesi, Sachs, Albert, entre outros). Isto significa uma economia radical de ordem financeira de curto e até longo prazo bem maior e uma proteção direta a realidade e a saúde e qualidade de vida e do meio-ambiente dos agricultores e consumidores brasileiros.


Na maioria dos estados , já existem iniciativas agroecológicas em APAS, que necessitam de serem acompanhadas, fortalecidas e incrementadas tanto em informações e ações técnicas, como em soluções econômicas de expansão de
seus produtos, organização comunitária e cooperativa.

Normalmente seus produtores não conhecem a realidade da agroecologia com a profundidade suficiente para obterem uma lucratividade maior e uma expansão inclusive mais concreta em mercados internacionais e nacionais. Esta é uma das tarefas mais importantes para a agroecologia brasileira: definir produtos, centros de produção, as melhores técnicas ecológicas mais eficientes e possibilitar a criação de corredores de comercialização tanto
para os mercados internos como para os mercados externos, principalmente para o EUA, Japão, Arabia, Israel, Comunidade Econômica Européia e Mercosul.


O Governo Federal brasileiro somente a partir do ano de 1990 começou a valorizar inclusive politicamente este importante setor sustentável agrícola brasileiro. Mas esta tendência é mundial: com o stress ambiental e industrial, buscam-se soluções mais sustentáveis de crescimento econômico em um paradigma de desenvolvimento ecológicamente e economicamente mais viável e qualitativo. Na área agrícola, que é fundamental pela sua importância como atividade primária, a agroecologia, agricultura biodinâmica e a Permacultura assumem assim importância crucial. Como desafio então, os diversos ministérios públicos como de Agricultura, Meio-ambiente, Reforma Agrária e Ciência e Tecnologia, podem assumir uma posição conjunta que tenha complementariedade com a posição das principais Ongs que atuam no setor agrícola brasileiro. Esta é uma das áreas que o IBAMA e o MA podem desenvolver, ampliar e “ ser como um fio ou guia-condutor”, pois a Agroecologia complementa os esforços que já são monumentais relacionados a preservação e conservação da biodiversidade e do meio-ambiente brasileiro e mundial. Foi mensionada sua importância por muitos debatedores neste I Congresso Nacional de Reservas Particulares de Patrimônio Natural - RPPNs promovido no Congresso Nacional Brasileiro, em Setembro de 1996.

*Engenheiro agrônomo, ecologista, educador ambiental, naturopata, possui uma longa experiência de introdução de um novo paradigma holístico na elaboração e execução de programas estratégicos socio-ambientais em políticas públicas nacionais de destaque como a formação do Programa Estadual de Agroecologia da Sematec - GDF - Ano de 1995, da Carta de Brasília: unidade entre as secretarias estaduais do GDF na esfera pública ambiental, ano de 1996, a elaboração do Programa Nacional de Agroecologia, Agricultura Biodinâmica e Permacultura para as Áreas de Proteção Ambientais Brasileiras do IBAMA/MMA, e a organização do Projeto Nacional e Internacional de Comercialização de Produtos Agroflorestais Medicinais da Reserva Extrativista Chico Mendes do estado do Acre do Conselho Nacional das Populações Tradicionais da Amazônia, alêm de possuir uma ampla formação terapêutica onde busca introduzir estudos avançados em naturopatia em políticas educacionais e de saúde pública em diversos centros de destaque do Brasil. E-Mail: [email protected]

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