[Rede de Agricultura Sustentável]
 

ogm

A ecoagricultura

OSCAR ARIAS*

Ministros do Meio Ambiente dos países do Caribe e da América Latina reuniram-se recentemente no Rio de Janeiro para discutir uma agenda para o Encontro Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável de 2002, que terá como sede Johannesburgo. O principal tema desse encontro -também conhecido como Rio+10- será um tópico crítico: a conjunção de pobreza e conservação. Onde pobres e famintos têm poucas opções -além daquela que é agredir o ambiente para dele retirar o sustento-, os esforços de conservação serão obstruídos. Esse cenário deve ser tão familiar para brasileiros quanto para costarriquenhos: a necessidade de mais alimentos e melhores meios de vida continua se opondo aos esforços de conservação no mundo.

Mas há uma solução. Relatório recente indica uma nova e emergente estratégia: a ecoagricultura, termo cunhado pelos cientistas. Com ela, agricultores e ambientalistas, em vez de se enfrentar, trabalham em conjunto para encontrar métodos que tanto produzam mais alimentos quanto preservem o ambiente. Das plantações de subsistência às lavouras de café, passando pelas culturas de arroz, agricultores e cientistas estão encontrando meios de preservar a biodiversidade em vastas áreas de plantio.

Os ministros deveriam examinar essa estratégia revolucionária para a conservação. O relatório é um esforço conjunto da Future Harvest, ONG de alcance global que apóia pesquisas em agricultura e meio ambiente, e da IUCN (The World Conservation Union). O documento, que reúne cientistas dessas duas áreas, apresenta, pela primeira vez, um resumo compreensivo das interações entre biodiversidade selvagem e agricultura que vêm ocorrendo em várias regiões do mundo. O relatório, "Common Ground, Common Future", mostra que o método mais empregado para proteger a vida selvagem tem sido o isolamento de grandes áreas nas quais o plantio e a criação de animais passam a ser restritos. Essa técnica é eficaz até um certo ponto -venho apoiando a criação de reservas ecológicas em meu país, a Costa Rica, onde a conversão da dívida externa em investimentos voltados para a conservação foi uma prioridade em minha administração.

Pesquisas mostram que reservas ecológicas por si só não irão resolver o problema, caso espécies ameaçadas e população faminta ocupem o mesmo espaço. A eficácia da criação de reservas depende enormemente de as terras ao redor dessas regiões protegidas adotarem ou não metas conservacionistas. Hoje, quase metade das maiores reservas ecológicas do mundo está sendo usada intensamente para a agricultura.

Na verdade, a necessidade de mais alimentos -e de mais plantio- é urgente e está crescendo no mundo desenvolvido. Mais de 1,1 bilhão de pessoas vivem dentro das 25 "hot spots" da biodiversidade, expressão usada por pesquisadores para denominar áreas que abrigam várias espécies sob alto risco de extinção. Essas zonas, em sua maioria, são também áreas em que se encontram altas taxas de desnutrição entre seus habitantes. Em muitas delas, a população humana está crescendo mais rapidamente do que a média mundial.É obvio que a resposta para a conservação da biodiversidade não pode se frear a produção de alimentos.

São elas: estabelecer redes de habitats para a vida selvagem em áreas não cultivadas e conectá-las com áreas maiores sob proteção ambiental; introduzir plantas perenes nos sistemas de agricultura para imitar habitats naturais, como florestas e savanas; empregar métodos de plantio que reduzam a poluição; aumentar a produtividade agrícola em áreas já plantadas, para, no futuro, reduzir a conversão de terras selvagens em terras de plantio; modificar a forma de lidar com o solo, a água e a vegetação nos campos de colheita, bem como em outras áreas produtivas, para melhorar o valor dessas áreas como habitat para a vida selvagem; e criar áreas protegidas nas proximidades de fazendas, sítios e criadouros de peixes que tragam também benefícios para a população local.

Hoje, já são encontrados vários estudos de casos em que essas estratégias, com sucesso, produzem mais alimentos e, ao mesmo tempo, protegem espécies ameaçadas. Um exemplo vem da mata Atlântica, no Brasil, que abriga micos-leões-dourados -só encontrados nessa região do planeta-, além de centenas de espécies de aves e uma flora muito rica. Como resultado de cinco séculos de desmatamento e de crescimento populacional, apenas 7% da mata original permanecem. Atualmente, a exploração leiteira em pequena escala tem colocado fazendeiros e conservacionistas em confronto, pois o gado precisa de áreas cada vez maiores para pastagem.

Desde meados de 1990, a ONG Pro-Natura tem dado assistência especializada aos fazendeiros pobres dessa região que exploram a produção de leite, para que eles possam melhorar sua produtividade. Em troca, esses proprietários estão ajudando a reflorestar e a regenerar parte de suas terras. Esses produtores têm visto triplicar a quantidade produzida de leite e, como conseqüência, têm duplicado suas rendas. Com o aumento da produtividade, áreas voltadas para a pastagem têm diminuído. Mais de 60 hectares de pastagens em 16 fazendas já foram revertidos em florestas. Além disso, mais de 50 mil mudas já foram plantadas nessas fazendas e em comunidades rurais da região.

Adotar a ecoagricultura em larga escala irá requerer uma mudança de mentalidade por parte de três setores que, com freqüência, têm se enfrentado: proprietários de terras, ambientalistas e responsáveis pelas políticas ambientais nos governos. No entanto a recompensa é grande para todos. Os ministros do Brasil, dos demais países da América do Sul e da América Central deveriam examinar essa nova abordagem de produção de alimentos para tentar, com a ajuda dela, resolver um importante dilema que, por décadas, tem sido um obstáculo para os esforços conservacionistas. A ecoagricultura oferece aos seres humanos e à vida selvagem a chance de dividirem o mesmo solo e prosperarem conjuntamente.

Escrito por Oscar Arias Sánchez, 61, Prêmio Nobel da Paz de 1987, é embaixador para a organização Future Harvest. Foi presidente da Costa Rica.


Página Anterior Inscreva-se na Rede   webmaster Envie-nos Documentos

Rede de Agricultura Sustentável é um serviço gratuito de Cristiano Cardoso Gomes, e contou com o apoio da Broederlijk Delen