Soja Orgânica, Cobertura Verde e o Mato, por Carlos Armênio

O controle do mato tem recebido pouca atenção nos textos sobre agricultura orgânica. E, de fato, o mato usualmente tem uma importancia menor nos sistemas orgânicos maduros e bem administrados. Contudo, nos sistemas em transição para o orgânico, o mato é um problema importante, e o principal problema de natureza biológica para a produção orgânica de soja. Nesse artigo, discutimos o que aprendemos sobre o controle do mato em soja no período de conversão, sobretudo no Paraná. Para isso, exporemos alguns conceitos com os quais raciocinamos.

Competição e funções ecossistêmicas

Talvez a primeira idéia ao falar de mato é que ele compete com as culturas: uma planta de soja será prejudicada se tiver ao seu lado uma planta de capim marmelada. Contudo, a idéia de "competição" apenas faz sentido quando focalizamos a situação de uma planta individual e a curto prazo. Se olharmos duas plantas inseridas no talhão de cultivo, a figura muda. Para se manterem íntegros e ativos, os agroecossistemas precisam realizar funções como: captar ao máximo a energia solar, minimizar perdas de nutrientes minerais, converter ao máximo a água e o calor disponíveis em biomassa, manter mecanismos endógenos de controle das espécies existentes etc. Quando qualquer dessas funções de ecossistema não é realizada, perdem-se nutrientes, o ecossistema entra em degradação.

Funções ecossistêmicas exigem a contribuição de várias espécies e tipos de organismos, e dependem desse conjunto. Apenas com soja no talhão, as perdas de nutrientes são maiores e o aproveitamento da luz e da água são menos eficientes do que soja com capim marmelada. Assim, um talhão de soja infestado com capim marmelada realiza suas funções ecossistêmicas melhor que um talhão sem mato. Para a execução das funções essenciais de ecossistema, manuteção da fertilidade do talhão, a soja e o capim marmelada, mais se complementam do que competem.
O sistema normalmente sai perdendo sempre que tentamos otimizar a produção de uma única espécie.

O problema é que não vendemos capim marmelada, mas soja! Mas, para que possamos continuar produzindo e vendendo soja por muito tempo, o manejo do agroecossistema precisa ser pensado e administrado para realizar as funções de ecossistema necessárias à sua manutenção. À medida que essas funções se realizam, diminui a necessidade de recursos externos e intervenções, inclusive problemas com plantas daninhas.

O mato e as funções ecossistêmicas

Os sistemas naturais sempre otimizam as funções ecossistêmicas. Assim, para fazermos agricultura, nós expomos o sistema a perdas. Os mecanismos naturais se encarregam de corrigir o problema, a natureza não tolera disperdício de fatores de produção vegetal e reage. Sempre que a combinação de luz, água, nutrientes e temperatura é favorável ao crescimento de plantas, alguma planta acabará se instalando. A evolução produziu plantas capazes de aproveitar as mais variadas combinações desses fatores de produção vegetal.

Os "matos" que infestam nossas culturas são plantas capazes de tapar os "buracos" em que esses fatores não são bem aproveitados pelas culturas. Qualquer "janela" no calendário de uso da terra é uma oportunidade para algumas plantas se desenvolverem. Para diminuir o mato, precisamos preencher esses buracos, fechar essas janelas. Para isso o objetivo é manter o terreno vegetado e com trama ativa de raízes no período em que o crescimento vegetal é possível na região, o que na maior parte do Brasil são 365 dias por ano. Esses buracos podem ser preenchidos com lavouras comerciais, plantas de cobertura e mesmo o mato, sempre com o cuidado de maximizar a biodiversidade.

Matos oportunistas, matos especialistas e sistemas de produção

Em termos dos nichos ecológicos, a maioria das espécies invasoras pode ser colocada em duas grandes categorias: as oportunistas e as especialistas. As oportunistas apresentam grande capacidade de adaptação a diferentes situações de clima e solo, crescem mais rápido que as plantas de cultura, produzem mais sementes, normalmente apresentam dormência nas sementes e grande plasticidade fenotípica. Nesse grupo estão os carurus (Amaranthus) e o capim marmelada ou papua, que, em condições favoráveis podem produzir uma grande planta com milhares de sementes, ou, em condições desfavoráveis, apenas uma plantinha minúscula, igualmente apta a deixar muitas sementes no terreno.

A posição ocupada pelas invasoras oportunistas, no tempo e no espaço, são definidas pelo sistema de uso do solo e pela forma como esse sistema é manejado. Em pomares, as entrelinhas das árvores são a janela mais importante; para frutiferas, que perdem folhas no inverno, todo terreno se torna uma enorme janela. Em sistemas dominados por culturas anuais de verão, como soja e milho, o periodo anterior ao fechamento da cultura é uma pequena brecha, e o inverno uma grande janela, onde as plantas invasoras refazem o estoque de sementes no solo para infestar as culturas seguintes.

Os matos especialistas apresentam uma estratégia inteiramente diferente. Eles imitam a cultura que infestam em certos atributos básicos, sobretudo na arquitetura da planta e no ciclo, "escondendo-se" das práticas de controle do mato. Um bom exemplo é o arroz vermelho, botanicamente a mesma planta do arroz cultivado, mas indiferenciado visual e quimicamente. Uma planta de arroz vermelho na linha de plantio de arroz está garantida. Outro exemplo é o leiteiro ou amendoin bravo na soja, que cresce verticalmente como a cultura, e amadurece suas sementes um pouco antes da soja estar madura.

Os herbicidas também selecionam invasoras "especialistas", que são aquelas capazes de sobreviver ao princípio ativo aplicado, por exemplo: o Roundup seleciona trapoeraba (Commelina bengalensis), que em pouco tempo domina o terreno. Como as invasoras especialistas dependem de uma determinada cultura ou herbicida para prosperar, são mais problemáticas nas monoculturas, e perdem importância em sistemas diversificados.

O controle do mato na conversão para a soja orgânica

Na maior parte das conversões para soja orgânica que acompanhamos, a flora invasora é uma mistura de espécies oportunistas e especialistas, tendendo para o segundo caso quanto mais monocultor for o sistema precedente. A rotação de culturas, obrigatória no plano de conversão, é suficiente para aliviar a pressão das invasoras especialistas, sobretudo do amedoim bravo. O controle das oportunistas é mais dificil, e exige um esforço concentrado de fechamento das janelas em que o mato se desenvolve e produz sementes.

A primeira janela é o inverno: depois da maturação da safra de verão, de março a maio, e antes do plantio da nova safra, de outubro a novembro, todos os fatores de produção ficam à disposição do mato, que pode produzir num único ano, sementes para a infestação de várias safras no futuro. Por isso, ao plantar uma boa cobertura de inverno, o agricultor está reduzindo a infestação de mato nas safras seguintes. A esse respeito, cabe um depoimento de Afredo Ruedel, um agricultor há mais de vinte anos inteiramente orgânico, em Capanema, sudoeste do Parana: - Apenas aprendi a controlar o mato depois de plantar adubos verdes. Antes, trabalhávamos muito, mas resultava em pouco, a cada ano o mato estava de volta. O que Alfredo Ruedel percebeu, é que o ponto central para o controle do mato é prevenir sua ressemeadura. O controle usual, cujo foco é o inicio do ciclo da cultura, alivia o problema naquela safra, mas não necessariamente na seguinte.

Num experimento de longo prazo, em Ponta Grossa, Paraná, o pesquisador Francisco Skora Neto, do IAPAR impediu a ressemeadura do mato por 10 anos. Depois de 3 a 4 anos, a infestação de capim marmelada caiu para 5% a 10% da inicial, mas ainda havia marmelada nascendo das sementes armazenadas no solo após 10 anos sem producão de sementes! Em lavouras comerciais, observamos esse prazo de 3 a 4 anos para que os efeitos da prevencão de ressemeadura sejam significativos. Ressalte-se que mesmo as baixas populações remanescentes precisam ser controladas, porque a produção de sementes num único ano pode ser suficiente para garantir a infestação por vários anos no futuro. Para o capim marmelada, observamos produção entre 1.700 e 75.000 sementes por metro quadrado, parte das quais pode ficar armazenada no solo por anos ou décadas. A presença da cobertura de inverno contribui para reduzir a infestação pelo mato, mas a redução é maior quando o mato é controlado também na cobertura de inverno, pelo menos nos primeiros anos.

A escolha da cultura de inverno

Para o controle do mato, a cobertura de inverno ideal seria aquela que se ajustasse perfeitamente à entressafra da cultura de verão, que se adaptasse bem às condições de clima e solo locais, fosse competiva com as ervas daninhas, compatível com as culturas prinicpais em termos de pragas e doenças, produzisse sementes com facilidade, tivesse algum valor econômico em si mesma, e se ajustasse às máquinas e equipamentos existentes no sistema de produção. Para o plantio direto, seria desejável que a cobertura produzisse palhada abundante e persistente. Essa cultura ideal não existe, o agricultor precisa definir suas prioridades e enfrentar os problemas com outras armas.

Pode-se optar pelo trigo como cultura econômica para o inverno, e compensar com capina seu fraco efeito supressor sobre ervas daninhas, comparativamente ao efeito da aveia preta. Quando o sistema inclui gado, coberturas que produzem forragem no inverno, como aveia preta e azevém, se revestem de valor econômico, mas quanto mais se deixar o gado pastar, menos palha sobrará para controlar as invasoras no inicio do ciclo da soja. O nabo forrageiro produz rapidamente uma grande quantidade de massa verde, mas sua decomposição é fugaz como fogo de palha. Cada agricultor tem de definir o balanço que melhor lhe convém.

De uma maneira macro, as coberturas de inverno mais importantes na produção de soja orgânica no Paraná são o azevém e aveia preta. O azevém exige mais frio e mais chuva para produzir boa cobertura, sendo uma opção adequada ao clima CfB, na classificação de Koeppen, a grosso modo ao sul do paralelo 24oS, e acima de 800 m de altitude um pouco mais ao norte. Uma vez plantado, o azevém ressemeia naturalmente, e sua germinação ocorre quando as temperaturas baixam, normalmente em abril, logo após a colheita da soja. A maturação do azevém ocorre em novembro, época em que a soja é plantada (ver foto). A elevação da temperatura, que acelera a maturação do azevém, também acelera o crescimento da soja. Assim, a soja e o azevém se revezam cobrindo o solo 100% do tempo e a infestação de mato é reduzida. Embora reduzida, precisa ser controlada. O principal problema nesse sistema é que ele inviabiliza a produço futura de cereais de inverno, porque o próprio azevém é uma invasora nessas culturas. Por outro lado, o azevém é pasto de primeira qualidade...

A aveia preta tolera temperaturas mais altas que o azevém e resiste melhor à seca, produzindo boa massa no oeste e norte do Paraná e nas áreas mais altas e frescas dos estados do Sudeste, sob clima Cfa. Nessas regioes, ela amadurece de meados de agosto a meados de setembro, deixando uma janela de um a dois meses até o plantio do milho ou da soja. O IAPAR lançou há poucos anos a variedade de aveia preta IAPAR-61, de ciclo mais longo, que reduz essa janela, embora não a elimine. A aveia preta apresenta forte efeito supressor sobre plantas invasoras, mas, como no caso do azevém, o mato remanescente precisa ser controlado para reduzir ainda mais a infestação futura.

Nas safras 2001-2002 e 2002-2003, testamos a aveia como cobertura de inverno em experiementos simulando o primeiro ano da conversão, em Londrina, em talhões altamente infestadas pelo capim marmelada, a espécie mais competitiva dentre as invasoras de soja na região. Trabalhamos com níveis de palha de zero a 10 toneladas por hectare, medindo o efeito desses níveis sobre o mato e sobre a soja. Metade de cada parcela foi capinada. A soja capinada produziu as mesmas 3 t/ha, independentemente da palhada de aveia. Sem capina, a soja produziu mais e o mato produziu menos à medida que aumentou a quantidade de palha (ver grafico). Esses resultados indicam a possibilidade de cultivo de soja orgânica em terrenos pesadamente infestados pelo mato, desde que se produza boa palhada no inverno. Isto requer, clima favorável, mais atenção à produção de palhada de aveia preta no inverno, que, nas lavouras comerciais, é da ordem de 4 a 5 t/ha, com potencial para mais de 10 t/ha. O controle de ervas já é bastante visível a 6-8 t/ha, uma meta alcançável com cuidados fitotécnicos usuais, uso de sementes de qualidade, plantio na época adequada, fertilização, etc. Nossa impressão é que o custo para aumentar a produção de biomassa da aveia é bem pago pela economia posterior de mão-de-obra na capina da soja. Colegas do IAPAR estão realizando testes em lavouras comerciais na safra 2003-2004.

Qualquer que seja a produção de palha de aveia, o mato precisa ser capinado na soja. No experimento mostrado no gráfico, com 10 t/ha de palha, e muito pouco mato, as poucas plantas de capim marmelada que escaparam ao efeito da palhada produziram 1700 sementes viaveis por m2 de terreno. Essas sementes ficaram lá para infestar as safras seguintes, de modo que mesmo o mato residual precisa ser controlado.

O controle mecânico do mato em soja orgânica

Além de evitar a produção de sementes do mato, a capina tem uma outra finalidade: como destina-se, quase na totalidade à alimentação humana, atende a um mercado que exige grãos limpos. Quando a colhedeira passa, qualquer umidade contribui para sujar os grãos, de modo que poucas plantas de mato verde podem causar uma perda na qualidade do produto. Por isso a produção orgânica de soja depende, em maior ou menor grau, de um rigoroso controle das invasoras, e o melhor controle atualmente disponível é a capina manual.

Para realizar o controle de ervas, os agricultores optam basicamente por uma entre duas estratégias. A primeira é incorporar a cobertura de inverno ao solo, deixando o terreno livre para a passagem de cultivadores puxados por animais ou tratores, antes do repasse manual com enxada. Esse padrão predomina e é bem dominado pelos agricultores, mas tem o inconveniente de expor o solo à erosão. No Paraná, que pratica em quase toda sua produção de grãos, o plantio direto, é contraditório que os orgânicos, protetores dos recursos naturais, estejam expondo o solo à erosão.

Outra estratégia é fazer o plantio direto sobre a palhada. Consideramos esse sistema mais desejável, por ser mais ecológico e estender o periodo de tempo disponivel para a capina, desde que a palhada seja de pelo menos 6 t/ha. Uma observação importante: a capina com enxada comum raspando toda a superfície do solo, predominante em nossa cultura agrícola, não serve para o repasse em plantio direto: toda a palha acaba sendo revolvida, plantas da cultura acabam prejudicadas e o trabalho se torna moroso. Obtivemos melhor resultado com enxadas de lamina estreita, utilizadas para hortalicas, mais leves para o operador, trabalhando sob a palha, com revolvimento minimo.

A opção de manejo do solo (e por consequência da cobertura de inverno) tem influência direta sobre o tempo de vida útil das sementes do mato e sobre a infestação futura de ervas. Sementes de mato na superfície morrem, germinam ou são predadas mais rapidamente. Por outro lado, o revolvimento do solo, enterrando as sementes, estende seu período de vida útil, em alguns casos, por decadas. Por isso, o estoque de sementes de mato no solo se reduz mais rapidamente em plantio direto que em preparo convencional. E quanto maior e mais duradoura a palhada, maior tende a ser esse efeito.

Considerando esse aspecto, em geral é mais vantajoso deixar a cobertura de inverno completar o ciclo, o que também reduz a janela até a cultura seguinte e oferece controle do mato em sua fase inicial. Se a cobertura vai completar o ciclo, a escolha da espécie deve recair sobre aquelas com baixo potencial como infestante nas culturas econômicas exploradas na propriedade. No caso da aveia preta, nossos experimentos evidenciaram que as sementes que emergem no verão, sob temperaturas muito elevadas para a aveia, geram plantas fracas, rapidamente dominadas pela soja.

À guisa de conclusão

Ao reler esse texto, ficou-me uma impressão que faltava uma conclusão... ainda que todas as informações que me pareciam essenciais tivessem sido expostas. Deixei o material parado alguns dias e percebi que de fato não tenho uma conclusão, mas vários elementos de um quebra-cabeca que está sendo montado, do qual minhas informações são algumas peças. Minha expectativa, com o trabalho em soja orgânica, é o plantio direto sem herbicidas, o maior desafio técnico para a produção de lavouras anuais na atualidade.

O tamanho do desafio aliviar a sensação de não ter feito tudo o que precisaria ser feito, mas, mais importante do que isso, dá a medida exata da coragem de centenas de agricultores que tem enfrentado esse desafio nas suas lavouras! É na construção de sistemas de plantio direto orgânico, que quero ver impressa também a sua marca.

Fonte: Ecodebate em 21/11/2005

 
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