Contaminação

Por Albano Schwarzbold*

Um rio, qualquer rio, é sempre e necessariamente um contínuo das nascentes até a foz de um rio maior ou do oceano, em que os processos também ocorrem como um contínuo funcional.

Goethe já dizia: "Tudo surgiu da água, tudo é mantido através da água". Se essa expressão não é uma verdade tão absoluta, sem dúvida tem grande importância e atualidade. Cada vez mais se sabe - e se sente - a importância da água: ela ameniza o clima da terra; dissolve a maioria das substâncias orgânicas; participa da estrutura dos minerais; e é indissociável do metabolismo dos seres vivos.

E os rios? Eles manifestam todas as propriedades da água, mas são os minerais ionizados, os materiais dissolvidos ou suspensos, além da estrutura das assembléias dos seres vivos que dão a cada rio, ou trecho de rio, características particulares e únicas. Se ficarmos sentados na margem de um rio, ficamos impressionados com as quantidades de água que continuamente fluem através de seu leito. No entanto, eles representam uma porção ínfima da água no planeta, ou seja, apenas 0,0001% do total. A impressão de grandes volumes nos rios deve-se ao "contínuo" de passagem, ou seja, as águas passam continuamente, dando a impressão de grandes volumes.

Pode-se depreender que essa contínua disponibilidade de água também é condição de contínua drenagem superficial e que são intensos os processos que ocorrem nos rios, pois são eles que recebem as grandes cargas geradas no ambiente terrestre. Faz sentido a metáfora utilizada pelo grande limnólogo alemão Harald Sioli, que viveu na Amazônia por décadas e dizia que "os rios têm a função renal no contexto ecológico da paisagem". De fato, as águas superficiais ou infiltram ou escoam para os trechos mais baixos da paisagem, fluindo daí em direção às planícies, lagos ou oceanos. Entre os trechos de cargas recebidas da paisagem - principalmente humana - e os grandes ambientes receptores, ocorre internamente a dinâmica de transformação e transferência, onde se desenvolvem as assembléias de seres vivos, das bactérias até os organismos superiores associados das margens, passando por fungos, algas e protozoários, mais uma gama imensa de outros seres vivos, limitados a condições estreitas de sobrevivência, dependente das propriedades da água e das demais substâncias nela dissolvidas ou suspensas.

Um rio, qualquer rio, é sempre e necessariamente um contínuo das nascentes até
a foz de um rio maior ou do oceano, em que os processos também ocorrem como um contínuo funcional. Esse contínuo não é tão homogêneo como se pode imaginar à primeira vista, mas uma seqüência de aspectos ligados à geomorfologia, ao clima regional e à biota.

Na visão ecossistêmica, um rio é uma unidade espacial e funcional, muito aberta, portanto, tendo como limite a bacia hidrográfica. Se esse é o limite, torna-se óbvio que as massas de água que fluem através da calha de drenagem são conseqüência dos processos superficiais e sub-superficiais das terras adjacentes. De forma simplificada pode-se afirmar que um rio recebe sempre os produtos da drenagem na paisagem, transforma parte desses materiais e transfere tudo aquilo que não "conseguiu" transformar. Daí um contínuo. As assembléias de seres vivos vão modificando gradualmente sua composição para atender essas demandas. Se ocorre uma contínua dissipação de energia potencial em energia cinética, trecho após trecho do rio, há uma eterna busca de equilíbrio nunca alcançado na bacia de drenagem, modificando, também, continuamente a paisagem.

As considerações teóricas acima pretendem deixar claro que as cargas poluidoras numa bacia hidrográfica também são um contínuo da atividade econômica humana para a qual todos contribuímos negativamente. Tomemos como exemplo as recentes tragédias ocorridas no rio dos Sinos. Todos que, de algum modo, contribuem com drenagem de efluentes, domésticos ou industriais, urbanos ou difusos da agricultura, orgânicos ou inorgânicos, em qualquer trecho, têm participação na deterioração da qualidade da água do rio. A incapacidade de manter a baixa entropia - insuficiente capacidade de recuperação ou sobrecarga - se manifesta a partir de certo trecho, mas as causas também estão nos trechos a montante, que transferem todo material não transformado.

A solução, mesmo que com ônus para sociedade, está no tratamento integrado das cargas poluidoras, estabelecendo níveis mínimos de qualidade que assegurem a condição funcional do rio, portanto de manutenção da estrutura das assembléias de seres vivos, como um todo, não somente dos peixes.

* Albano Schwarzbold é professor do Departamento de Ecologia e PPG Ecologia do Instituto de Biociências - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O artigo foi produzida para o Jornal da Universidade, da UFRGS, edição nº 95, de Janeiro e Fevereiro de 2007, reproduzida sob permissão na EcoAgência de Notícias.
(Envolverde/Ecoagência)


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