Biodiesel: solução energética ou aprofundamento da crise agrária?

Por Rafael Rodrigues*

Há tempos que ouvimos o alardeado problema de uma possível crise energética. Inicialmente tido como um daqueles acontecimentos que demorariam séculos para realmente se consolidar, este debate foi postergado por interesses diversos. Já durante a década de 70 o Brasil desenvolveu tecnologia de ponta para contornar a situação e lançou um dos maiores programas de utilização de "combustíveis limpos", o Pró-alcool. Por pressão das grandes corporações americanas o projeto foi engavetado, pois ia de encontro a toda uma cadeia produtiva calcada na utilização dos combustíveis fosseis. Não é por acaso que o Brasil possui uma extensa malha rodoviária, onde a utilização dos automóveis e caminhões das grandes montadoras fizeram do país um dos principais financiadores das multinacionais da área no pós-segunda guerra. Milhões de dólares e algumas guerras mais tarde, vê-se que é necessário iniciar uma transição do modelo urgentemente. Aí começa o novo problema.

Considerado uma pérola deste novo mandato de governo, especialmente na área de política externa, o programa nacional de biocombustíveis irá ocupar a pauta da máquina pública. Passado o ciclo da cana-de-açúcar e do café, a produção de oleaginosas indica para uma nova etapa de colonização do país. Na contra-mão da história, o Brasil agora vai virar o fornecedor mundial de grãos para o biocombustível. Não pela sua privilegiada condição geográfica, pois os EUA, por exemplo, possui um meio técnico científico capaz de produzir o dobro do que vamos produzir, mas pela sua subserviência frente ao capital externo bem como o imediatismo de suas políticas públicas. O EUA é, hoje, um dos maiores produtores de grãos do mundo, produção esta que atende seu mercado interno com direito a venda do excedente para países periféricos. A venda do refugo alimentar americano é destinada a grande parte das empresas produtoras de ração animal. O milho, um dos principais componentes na produção de  biodisel, tem nos EUA sua maior produção mundial. Porque então pensar o Brasil como potencia mundial na produção de biodisel?

Transformar a matriz energética dos combustíveis irá requerer um esforço institucional tremendo dos países ricos, além de indicar para uma grave crise no mercado de grãos destas nações. O aumento excessivo sobre a procura poderá fazer o preço dos grãos dispararem nestes países, gerando graves crises às economias bem como uma crise social interna sem precedentes. Assim, é muito mais interessante tirar este peso de seu território e transferir o problema para longe de sua população. É exatamente aí que entra o programa de biodiesel do Brasil.

Até hoje entendido como um país eminentemente agrário, a produção do biodiesel poderia fazer do Brasil uma referência mundial em tecnologias alternativas. Com mais de trinta anos de experiência nesta área, possuímos os maiores pesquisadores destas alternativas. Porém, o que vamos observar é um grande desastre social no país. Novamente.

Nos últimos anos, o EUA inaugurou algumas usinas de produção de biodiesel. Mais uma centena delas estão previstas para entrar em funcionamento em um breve espaço de tempo. Nestas usinas está sendo treinada mão de obra qualificada bem como desenvolvida tecnologia adequada à realidade americana. O Brasil, então, será o grande financiador deste novo mercado mundial, oferecendo oleaginosas de boa qualidade a um preço irrisório. Mais que isso, e esta sim é uma das questões mais graves para a soberania da nação, veremos a partir de agora um aprofundamento do crescimento dos latifúndios no país.

Como aponta Graziano Silva, teórico da Questão Agrária no país, os momentos de crescimento da economia no país se dão paralelamente a um aprofundamento da crise agrária. São momentos marcados pelo crescimento dos módulos rurais. Segundo ele, são momentos propícios para um fenômeno que o mesmo chamou de "Fagocitose", onde as grandes extensões de terra engolem as pequenas propriedades a seu redor. Oriundo deste processo também se dá uma grave crise agrícola no país, afetando diretamente a soberania alimentar da nação.O resto da história é bem sabido por nós todos: fome, miséria e violência no campo.

É de fundamental necessidade que se faça uma transição tecnológica sobre a matriz energética que o mundo hoje conhece. O problema do aquecimento global já nos bate à porta, e certamente nos trará muita destruição e morte. O efeito estufa e as tragédias associadas, são hoje a principal causa dos desastres ambientais que sofremos por todo o mundo. Porém, sob quais bases estamos entrando neste novo negócio que nos parece muito claro e debatido mais que é tão obscuro quanto as intenções americanas?

O modelo do agronegócio já colocou suas mangas de fora. As imensas extensões de terra que antes ficavam como reserva de mercado e especulação imobiliária rural das grandes coorporações certamente será aproveitada para a produção associada ao biodiesel. De fato, estamos tratando de um momento estratégico na política mundial. A elite agrária, forte e com grande poder de influência dentro do governo já se organiza para esta nova etapa da economia. Os movimentos sociais, atentos a esta questão, já publicam artigos indicando a complexidade do momento bem como propondo saídas e soluções. A luta de classes está na balança. E nós, estamos de que lado?

*Rafael Rodrigues é graduando do curso de Geografia da UFBA, bolsista voluntário do Grupo de Pesquisa LEPEL e militante do Grupo NEPPA - Núcleo de Estudo e Práticas em Políticas Agrárias

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