Agroecologia como paradigma para a sustentabilidade

Data: 19/12/2006

Por: Francisco Roberto Caporal *

Vêm do início do século passado as proposições de tipos de agriculturas de baixos impactos ambientais. No Brasil, na década de 80, nasceu e cresceu um movimento sócio-ambiental dedicado a promover a chamada agricultura alternativa. Por certo, ainda não havia uma ampla consciência na sociedade sobre os efeitos não desejados no modelo agrícola da Revolução Verde, com seus pesticidas, adubos químicos e mecanização intensiva, mas já se delineava, aqui, como e muitos lugares do mundo, a necessidade de pensar e implementar políticas públicas e estratégias de desenvolvimento e de produção agrícola menos agressivas ao meio ambiente. Nos Estados Unidos, no mesmo período nasceu a proposta da Agricultura de Baixos Insumos Externos, enquanto na Europa cresciam os esforços no sentido de melhorar a qualidade dos alimentos produzidos no campo.

O "ambientalismo cientifíco", fortalecido após a conferência de Estocolmo, ocorrida em 1972, determina a necessidade de mais estudos no campo da agricultura visando reduzir ou eliminar as externalidades negativas do modelo da "modernização agrícola", sejam aquelas relacionadas com os impactos ambientais, sejam as que afetam diretamente a saúde humana, como a crescente contaminação por agrotóxico ou a presença de resíduos agroquímicos nos alimentos, como tem mostrado a Agência de Vigilância Sanitária (ANVISA). Neste sentido, não é surpresa que estudos recentes estejam mostrando a relação existente entre contaminação por agrotóxicos e a presença de doenças, como câncer de mama, câncer de próstata, mal formação de fetos, distúrbios nervosos, etc.

Muitos destes sintomas presentes na sociedade e no meio ambiente, desde algumas décadas, indicam que não podemos seguir produzindo com base em um modelo agrícola que gera renda e riqueza para alguns poucos, enquanto coloca a maioria da população como devedora na balança ambiental, ou numa condição de riscos, como mostram pesquisadores da área da saúde. Sob o slogan de "acabar com a fome no mundo", criamos e implementamos um modelo de agricultura social, econômica e ambientalmente insustentável. Este modelo, dependente de fontes não renováveis de energia, está agora com seus dias contados. Se não bastasse, novas pesquisas (Centro de Pesquisas Meteorológicas Aplicadas às Agricultura - Cepagri/Unicamp), estão alertando para um provável grande impacto sobre a produção agrícola brasileira em razão do aquecimento global que vem ocorrendo de forma constante.

Tudo isso leva a crer que necessitamos pensar em novas contribuições, inclusive no campo da produção agropecuária, que permitam o estabelecimento de processos produtivos capazes de ajudar a reduzir impactos ambientais, a produzir alimentos limpos e que, ao mesmo tempo, nos aproximem dos ideais de sustentabilidade no médio e longo prazos. Nesta perspectiva, a Agroecologia, como enfoque cientifico, vem aportando conhecimentos capazes de oferecer as bases para uma transição agroecológica, sem perder de vista a necessidade de produção de alimentos de forma estável e permanente, para atender as necessidades alimentares de uma população mundial que segue crescendo.

A Agroecologia, stritu senso, propõe uma nova aproximação entre a Agronomia e a Ecologia, de modo que possamos melhor entender o funcionamento dos agroecossistemas e redesenhá-los de acordo com as funções ecológicas horizontais e verticais que possam ser potencializadas a partir das características de cada bioma brasileiro, tomando em conta os elementos de cultura e os saberes locais que influem no estabelecimento e no manejo das agriculturas de cada zona.

A Agroecologia, como defendemos no Congresso Brasileiro de Florianópolis, em 2005, vem se constituindo num novo paradigma. Não se trata de um tipo de agricultura, mas de uma "matriz disciplinar", do campo da complexidade, que, a partir de novas bases epistemológicas, pretende orientar processos sócio-produtivos mais sustentáveis e assentados em um novo conjunto de princípios éticos pautados pela inclusão social, soberania alimentar, respeito à vida e ao meio ambiente.

Seguramente, o imperativo sócio-ambiental que nos desafia, exige novos esforços nos campos da pesquisa, do ensino e da assistência técnica e extensão rural. Por sorte, já temos iniciativas como a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Pnater), o Marco de Referência para Pesquisa em Agroecologia, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), e o Programa de Agroecologia do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que, entre outras, indicam que é possível caminhamos em busca dos processos produtivos mais sustentáveis, que a sociedade está exigindo.

A Agroecologia, como enfoque cientifico, vem se mostrando como uma abordagem promissora, não somente para a pequena produção ecológica, senão que pode passar a oferecer elementos de conhecimento para a ecologização da agricultura empresarial brasileira, tornando os sistemas produtivos mais sustentáveis. A produção orgânica de larga escala, já presente em nosso país, com produtividade equivalente à agricultura agroquímica, tem dado provas de que podemos evoluir para uma produção mais limpa e menos agressiva sem perdas econômicas e com muitos ganhos sócio-ambientais.

* O autor é Engenheiro Agrônomo, Mestre em Extensão Rural e Doutor em agronomia pelo Programa de Agroecología, Campesinado e Historia, da Universidad de Córdoba/Espanha. Atualmente é Coordenador Geral de Ater, do Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural, da Secretaria de Agricultura Familiar, do Ministério do Desenvolvimento Agrário.

 
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