Secretaria de Meio Ambiente aposta nas agroflorestas para minimizar consumo

Pasta vai instalar modelo que combina espécies arbóreas lenhosas, como frutíferas ou madeireiras, com cultivos agrícolas ou animais

aguaResponsável por 70% do uso da água do planeta, a agricultura acende o alerta para questões ambientais. O setor provoca a diminuição de rios, redução do lençol freático e contaminação por meio de pesticidas. No Distrito Federal, que tem uma das maiores produtividades de grãos do país, é desconhecido quanto do recurso é usado com exatidão. Mas se sabe que uma alternativa para amenizar os estragos desse consumo é a criação de agroflorestas, meios de produções sustentáveis de menor impacto na questão hídrica.

A Secretaria do Meio Ambiente se mobiliza para instalar o modelo em pequenas propriedades rurais brasilienses. A ideia é substituir ao menos 20 hectares de produção convencional pela iniciativa sustentável. O secretário do Meio Ambiente, José Sarney Filho, explica que a medida não será obrigatória e não há prazo para ser executada. “Daremos curso de qualificação. O projeto é piloto, se der certo, vamos replicar em outras regiões”, observa.

O programa começará capacitando produtores das regiões das bacias do Descoberto e do Paranoá, responsáveis por cerca de 80% do abastecimento do DF. “Essa produção (agricultura familiar) é mais vulnerável, pode ser influenciada pela possibilidade de produção sem sustentabilidade”, ressalta Sarney Filho. Ele diz que não serão impostas ações à produção convencional. “Essa não é nossa maior preocupação sobre recursos hídricos, porque a área é inteiramente segura de regulação. Os principais problemas são grilagens em cima de nascentes e de matas ciliares das bacias”, afirma.

Sustentabilidade
Especialista em recursos hídricos do Instituto Histórico e Geográfico do DF, o ecossociologo Eugênio Gionardidestaca que os impactos da produção agrícola convencional no meio ambiente são grandes. “O caminho da água subterrânea tem o trajeto natural, que é a formação do planeta Terra. Essas águas estão armazenadas lá embaixo. Quando encontram uma forma de sair, elas criam nascentes. À medida que a gente extrai, o recurso vai se esgotando e impedindo a formação de novos mananciais”, explica.

O estudioso defende a criação de agroflorestas na produção da capital. De acordo com ele, o plantio sustentável é sinônimo de mais recursos hídricos. “Uma árvore tem 100% de água, quando você a corta, está perdendo. O papel dela é receber a chuva e facilitar a permeabilização no solo. Se transformamos florestas em campos de soja, estamos criando situações mais difíceis ainda para reposição”, ressalta.

O Sítio Semente, em Sobradinho, trabalha com sistema de agroflorestas desde 2004, produzindo de hortaliças a frutíferas. Rômulo Cabral de Araújo, 33, é parceiro da iniciativa e conta que os benefícios de produção são enormes. “Trabalhamos com sucessão das plantas. A lógica é fazer uma clareira, que abre uma floresta que se renova. Começamos com as produções de ciclo curto, passamos para as de médio e finalizamos pelas árvores de floresta”, explica. “No lugar de termos escorrimento da água, que leva o solo embora, o nosso tipo de cultivo nunca fica saturado. A água chega ao lençol freático, o que diminui nosso gasto com irrigação”, completa.

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Com esse tipo de produção, os produtos têm maior qualidade, por não ter ações de pesticidas e ocorrer de forma natural, destaca o produtor. Ele ressalta ainda que as agroflorestas permitem cultivar diversos tipos de alimentos. “Sempre ocorre uma transição, e conseguimos aproveitar os insumos. As árvores ocupam o mesmo espaço, em andares diferentes. Usamos plantas nativas e exóticas, que conseguem crescer rápido e produzir biomassa pro solo, que ajuda, por exemplo, no desenvolvimento das hortaliças.”

Fiscalização
Durante o racionamento, que durou do início de 2017 a junho de 2018, a captação de água por produtores rurais foi restringida. Eles só podiam retirar o recurso em horários estabelecidos, alguns substituíram os equipamentos por outros de menor vazão. Agora, com os reservatórios cheios, voltaram a obedecer ao que estava previsto nas suas respectivas outorgas, o tempo que cada um tem de captação.

A Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento (Adasa) informou, por meio de nota oficial, que realiza ações de fiscalização nas áreas rurais e verifica se os usuários têm outorga e se estão cumprindo o estabelecido pelo documento com horários de vazão de captação. O texto ainda destaca que a Adasa realiza “numerosas campanhas de incentivo ao consumo da água”.

Para o professor Demetrios Christofidis, do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da UnB, medir a quantidade de água usada na agricultura é um processo difícil, pois há diferentes maneiras de captação e irrigação, além de fatores climáticos e produções sazonais. Mas ele diz que a capital tem agricultura mais controlada, acompanhada de pesquisas e com tecnologias que diminuem desperdícios. “O DF e o Entorno têm seguido muito bem o que é necessário para o avanço da biotecnologia e passaram até a usar sementes selecionadas, que diminuem o consumo”, salienta.

O especialista também concorda que as agroflorestas são uma das melhores formas de cultivo sustentável. “Ela mantém a sintonia com a natureza. Com ela, acontece a cooperação com o meio ambiente, que possibilita oferta de água nas nascentes e que os produtos sejam de qualidade sanitária mais adequada. A população precisa aprender a dar valor a isso. Em outros países, essa realidade é bem mais desenvolvida.”
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Águas Lindas ganha parque

O Dia Mundial da Água será celebrado hoje com a assinatura de um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) entre o Governo Federal e os governos do DF e de Goiás. O acordo prevê a proteção e uso racional dos recursos hídricos e incentivo à atividade rural sustentável na bacia hidrográfica do Alto Descoberto. Também será anunciada a criação do Parque Estadual Águas Lindas, que redefine a poligonal da unidade de conservação conhecida como Parque do Descoberto.

Criado em 1993, o Dia Mundial da Água visa alertar a população sobre a preservação do recurso para sobrevivência dos ecossistemas do planeta. No mesmo período do ano passado, o Distrito Federal recebeu o Fórum Mundial da Água, evento mais importante para debater questões hídricas do mundo. A edição atraiu 12 chefes de estado, 134 parlamentares e 70 ministros de 56 países.

Três perguntas para Fernando Leite, presidente da Caesb


Quais obras estão em andamento para manter o abastecimento no DF?
O grande investimento nosso em dedicação e financeiro é Corumbá IV. Temos obras menores, no Gama, mas a estrela da companhia é Corumbá. Estamos dedicando todos os nossos esforços para executar as pendências da obra. Queremos colocá-la em operação o mais rápido possível. Quando chegamos em janeiro, a primeira coisa que fizemos foi entender quais problemas existiam e o motivo de tantos adiamentos. Agora, estamos trabalhando para entregá-la à população.

Quais efeitos o racionamento surtiu no brasiliense e no governo?
Tivemos mudança de hábito. O brasiliense tinha costume de usar muita água, lavar calçadas e carros, sem se preocupar, e isso mudou. Para o governo, ficou a lição muito importante, uma palavra de ordem: racionamento nunca mais. Temos que trabalhar duas frentes, a questão do consumo e a redução de perdas. Hoje, 35% da água produzida não chega a seu destino final. Uma das nossas principais metas é resolver esse problema, que, na maioria dos casos, é causado por ligações clandestinas. Existem também outros problemas que impactam nesse número, como vazamento na rede. Porém, foi estimado cerca de 50 mil “gatos” no DF.

O que a Caesb fará para diminuir o desperdício de água?
Vamos entrar com o apoio de todas as instituições. Temos determinação do governador, Ibaneis Rocha (MDB), para estudarmos com participação da Codhab (Companhia Habitacional do Distrito Federal) e outros órgãos de controle para que o controle de ligações clandestinas seja equacionado e regularizado o mais rápido possível. Para enfrentar esse problema, temos que buscar a melhor solução. Com isso, trabalhamos para tratar a questão humanitária em primeiro lugar. Mesmo estando em questão irregular, temos crianças, grávidas e idosos que moram usam esse recurso. Vamos ver a melhor maneira de resolver esse problema.

Por 17 meses, brasilienses enfrentaram período de racionamento, em 2017 e 2018. Os principais reservatórios que abastecem a capital, Descoberto e Santa Maria, atingiram níveis críticos e ficaram abaixo dos 10% e 25%, respectivamente. O GDF passou a investir em obras de captação, como o Lago Paranoá. Agora, aguarda a conclusão da obra de Corumbá IV, que está mais de 90% concluída. Com ela pronta, a expectativa é de que o DF tenha abastecimento garantido para os próximos 30 anos.

A situação das barragens de Brasília é outra. O Descoberto está com 100% da capacidade, enquanto Santa Maria está acima dos 70%. Corumbá IV será responsável pelo abastecimento de regiões do Entorno, e as obras são realizadas e orçadas em parceria com o governo de Goiás. A estimativa era de que R$ 550 milhões, divididos entre Goiás e DF, seriam gastos para a finalização do projeto.

O lucro também será repartido. Inicialmente, metade dos 2,8 mil litros de água por segundo que serão gerados vão para regiões administrativas, e a outra parte para municípios goianos. A expectativa é de que, posteriormente, a captação seja expandida para 5,6 mil litros de água por segundo, o equivalente a 50% do atual abastecimento de todo o DF. A Caesb atribui os atrasos para a entrega da obra à gestão passada. De acordo com a autarquia, havia questões importantes, como fundiárias, a serem resolvidas.

Fonte:Correio Braziliense em 22/03/2019 por Walder Galvão

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