Meio ambiente é tema alheio aos planos de governo para o Estado (RS)


Beta Redação conversou com ambientalistas para avaliar o que pretendem os planos de governo dos principais candidatos

Por Aniele Cerutti, Eric Machado, Fernanda Salla e Laura Pavessi

Agrotóxicos, poluição atmosférica, sonora e da água e desmatamento. Embora essa realidade assuste ambientalistas, nenhum candidato ao governo do Estado procurou o Movimento Ecológico Gaúcho, que reúne as principais entidades ecológicas da região, na hora de fazer o seu plano de governo. É o que contam os ambientalistas Rafael Altenhofen e Julian Mauhs, quando defendem estarmos enfrentando um momento de retrocesso nas políticas ambientais.

Para se ter uma ideia da importância do assunto, Rafael ilustra a situação com um relatório da ONU de 2015. O estudo mostra que 6,5 milhões morreram naquele ano em função da poluição atmosférica e 1,8 milhões por conta da poluição da água. Enquanto isso, em local de trabalho morreram 800 mil de pessoas no mesmo período. “Veja a diferença: tem mais gente que morre por beber água contaminada do que em acidentes de trabalho. E nós temos uma preocupação maior com esses acidentes. E a preocupação ambiental que fica hoje diluída?”, provoca.

A Constituição Brasileira garante que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.” Sendo assim, até mesmo a extinção da Fundação Zoobotânica, que não teve comprovação de justificativa econômica ou técnica, pode ser compreendida como um desrespeito ao que prega a lei vigente.

Segundo estudo divulgado em 2017 pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), estima-se que o Brasil produza 78.4 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos. Desse número, 6.9 milhões de toneladas de resíduos não foram objeto de coleta e tiveram destinos impróprios.

Tempestades, temperatura insuportável e falta de ar em ambiente aberto são formas da natureza chamar a nossa atenção, mas quando ela se manifesta a humanidade ignora os seus sinais. Dados da Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler?—?RS (Fepam) apontam que 2017 foi um ano com temperaturas acima da média climatológica. A radiação solar esteve superior à média do período 2002–2016 durante todos os meses, com exceção de setembro, quando esteve ligeiramente inferior. Dentre as radiações que chegam à Terra, a ultravioleta (UV-B) é nociva aos seres vivos e pode causar danos à visão, enfraquecimento do sistema imunológico, desenvolvimento de células cancerígenas e envelhecimento precoce.

A Camada de Ozônio protege o meio ambiente, direcionando esse tipo de radiação às outras camadas, como um espectro. De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente, a camada de ozônio começou a sofrer com os efeitos da poluição crescente provocada pela industrialização mundial. A poluição libera substâncias como Brometo de Metila, Tetracloreto de Carbono (CTC), Hidroclorofluorcabono (HCFC) e Clorofluorcarbono (CFC), que são controlados pelo Protocolo de Montreal. O último podemos encontrar nas embalagens de desodorantes aerosol.

Os dados de monitoramento sobre a qualidade do ar realizado pela Fepam concluem que, ao longo de 2017, os poluentes PI10, NO2 e O3 apresentaram valores que ultrapassaram os padrões de qualidade do ar estabelecidos pela resolução CONAMA nº 003/1990, que regulamenta os níveis de concentração de poluentes.

Considerado o nono Estado que mais desmatou a Mata Atlântica no Brasil, o Rio Grande do Sul possui apenas 13% dos remanescentes florestais. Essa ação causa impacto e desequilíbrio de ecossistemas, perda da biodiversidade, extinção de fauna e flora local e danos aos recursos hídricos. Apesar disso, o monocultivo de eucaliptos utilizado para geração de celulose, uma das principais indústrias do sul do país, dá a falsa impressão de que ainda existem muitas florestas nativas.

Agrotóxicos

Em pauta na política neste último ano, o uso de agrotóxicos é um tema importante quando pensamos em questões ambientais. Segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Observatório da Indústria dos Agrotóxicos da Universidade Federal do Paraná, entre 2002 e 2012 o mercado mundial de agrotóxicos cresceu 93%, enquanto no Brasil, neste mesmo período, teve expansão de 190%. Desde 2008, o país é o maior mercado mundial de agrotóxicos.

Por meio da chamada bancada ruralista, um Projeto de Lei (PL) de 2002 voltou ao debate neste ano. O PL 6.299/02, conhecido por ativistas como “PL do Veneno”, visa flexibilizar a liberação de agrotóxicos. A pauta foi travada devido à luta popular e às eleições, mas deve voltar ao plenário após o término do período eleitoral. Em contrapartida, o projeto 6670/16, que tem com objetivo reduzir o uso de agrotóxicos, caminha a passos lentos, com a autorização apenas neste ano para uma comissão especial analisar o tema.

O que dizem os ambientalistas

Rafael Altenhofen é biólogo, mestre em Manejo de Diversidade da Vida Silvestre pela Unisinos, vice-coordenador da União Protetora do Ambiente Natural?—?UPAN. Também é presidente do Conselho Municipal de Meio Ambiente da cidade de Montenegro. Pela UPAN também atua como vice-presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Caí (Comitê Caí), integrante do Comitesinos e membro do Conselho Estadual de Meio Ambiente (CONSEMA), este último sendo uma das entidades que representam a Assembléia Permanente das Entidades em Defesa do Meio Ambiente no RS?—?Apedema/RS.

Julian Mauhs possui licenciatura em Biologia e mestrado em Diversidade e Manejo de Vida Silvestre pela Unisinos, graduando do curso de Engenharia Cartográfica e de Agrimensura pela mesma instituição. É ex-diretor e colaborador da Fundação Roessler.

Fonte:Beta Redação


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