Considerações sobre meu bairro verde

Morar em Brasília é uma experiência sui generis, como corresponde a essa cidade tão diferente. Morar no extremo da Asa Norte do Plano Piloto de Brasília é muito bom, especialmente para quem gosta de áreas verdes. Nesse setor, entre o eixo rodoviário e o lago, existe uma proporção de área verde que supera amplamente a construída, incluindo um pedacinho da vegetação original, cerrado com mata ciliar, conhecido como Olhos D'Água. Todo o resto é, na verdade, uma enorme plantação de mangueiras esparsas. Os vizinhos dão um bom uso a essas áreas, mas, sem dúvida, poderiam ser melhor aproveitadas se forem tomadas algumas medidas.

De fato, as partes verdes que se encontram entre os blocos são bastante usadas, especialmente para passear com o impressionante número de cachorros do bairro. E, evidentemente, o parque Olhos D'Água também é muito bem aproveitado. Neste caso, especialmente pelos que praticam atividades físicas, pelos meninos que ali brincam e pelos namorados.  Uns poucos observadores da natureza complementam os usuários. Mas, a maior parte da extensa área verde do bairro, em especial a que fica no extremo norte, é muito pouco aproveitada.

O assunto dos cachorros é engraçado. Há, obviamente, cachorros de todo tipo. Os minúsculos e ridículos passeando com homens grandes e fortes e os enormes mastins passeando por mocinhas sem força para controlá-los. Pode se ver uma moça com dois cães, cada um disparado para o lado oposto com ela enrolada no meio, não sabendo o que fazer, com o seu telefone celular numa mão e a bolsa de plástico cata-cocô na outra. Outros e outras, mais confiantes, soltam os seus bichos que, sem coleiras, brincam felizes no parque. Os cachorros soltos são um espetáculo à parte. É óbvio que já se conhecem e que devem esperar com desespero o momento de se reencontrar no dia seguinte.  Os donos dos bichos se conhecem e às vezes se reúnem em grupos grandes para conversar sobre seus cães. Quase nunca se observam brigas de cachorros. Pelo contrário, mais de um romance entre os donos e donas deve ter começado nesses eventos espontâneos. O uso dos celulares é onipresente. Raras são as passeantes que dão bola as necessidades dos seus cachorros. Só deixam de falar ou olhar nos seus celulares na hora de recolher o cocô. De fato, a maior parte dos donos e passeantes profissionais de cachorros cumprem com a instrução de recolher as excreções. Mas, tem alguns que apenas dissimulam levando bem à vista a bolsa de plástico, mas que nunca se agacham para usá-la.

Obviamente as áreas verdes entre as quadras sofrem algumas invasões. Os vizinhos podem se surpreender tendo em baixo das suas janelas uma barraca improvisada com um casal de “sem tetos” que exibe sem pudor sua vida íntima, incluindo as bebedeiras e as brigas e que fazem um churrasquinho com lenha no pé da árvore mais bonita. O mais irritante desse tipo de invasores é a sujeira indescritível que produzem, afetando uma área enorme. Quando eles estão por perto, o número de passeantes, principalmente o feminino, diminui drasticamente. Após semanas de presença constante, esses campistas informais somem, possivelmente por conflitos com a lei ou quiçá pela chuva. Mas voltarão. Também entram na área verde, possivelmente com algum tipo de autorização, vendedores ambulantes motorizados de hambúrgueres e de outros alimentos. Para isso passam com as suas camionetes na grama, praticamente acima do ninho de corujas buraqueiras que lá moram desde faz muito tempo.  De noite, fazem uma tremenda barulheira para atrair clientes. E, claro, o principal ocupante da área verde, e o mais constante e sem dúvida também o mais influente é uma igreja que decidiu ocupar a metade do espaço. Ademais, é frequente observar fogos que, normalmente, são controlados dentro das suas primeiras 24 horas.

Mas, em geral, essas áreas verdes são uma maravilha para o bairro que, estando no centro de uma cidade de três milhões de habitantes, a terceira maior do Brasil, tem ar puro -- exceto quando o vento traz o cheiro da estação de tratamento de esgotos instalada perto -- e muito espaço para espairecimento.  Apesar da pouca diversidade da sua flora, essas áreas verdes exibem um número considerável de aves, algumas muito bonitas. Porém, medidas simples poderiam aprimorar a situação e, em especial, o aproveitamento dessas áreas.

A priori o uso limitado das partes um pouco mais afastadas seja devido à falta de segurança. Mas, se foram mais usadas, esse inconveniente desapareceria. Acredito que, no essencial, seu desuso tenha a ver com o seu abandono e falta de atrativo. Verdade que esses espaços são verdes, mas como mencionado, parecem uma velha plantação abandonada de mangueiras, muito espaçada. Apenas na proximidade dos edifícios parece que alguns vizinhos -- ou os passarinhos -- se aborreceram com a monotonia e plantaram alguma outra coisa, como cajueiros, guaiavas, jacas, frutas do conde, abacates e pouco a mais. Quase não existem palmeiras. Esses parques poderiam ser verdadeiros jardins botânicos ou, pelo menos, coleções de árvores nativas ou exóticas, de fácil manutenção, fazendo-os mais úteis e especialmente atrativos. Tampouco seria difícil complementa-os com algumas trilhas de grava e bancos rústicos. Tem espaço para tentar desenvolver algumas hortas, coisa que dá para ver que já foi ensaiada sem sucesso por alguns vizinhos. Dedicando um par de jardineiros mais um pequeno orçamento para fazer as trilhas e providenciar mudas e adubamento, dá para fazer tudo isso. Não tem que ser feito tudo ao mesmo tempo. O jeito é adiantar gradativamente para que os usuários se acostumem a usar as melhorias. É evidente que a fauna aviária, que já é grande, aumentaria na mesma proporção na que se diversifique a oferta de espécies de plantas, criando outro atrativo.

De outra parte, dá pena ver o desperdício das frutas que essas árvores produzem. Claro que sempre aparece alguém que colhe o que pode, mas considerando a altura dessas árvores que nunca foram podados, a tarefa fica difícil para os amadoristas. A verdade é que existem tantas mangueiras em Brasília que acredito justiçar-se há um simples estudo econômico para o seu aproveitamento como alimento para animais ou outros usos, pelo menos como adubo. De outra parte, a acumulação de frutas apodrecendo no chão não contribui para a limpeza nem para a segurança dos caminhantes.

O pecado original dessas áreas verdes remonta à construção de Brasília durante a qual os arquitetos empolgados com a obra humana esqueceram-se da natureza e ordenaram passar o trator em cima de tudo o que pudesse lembrar o cerrado original. Foi um milagre -- na verdade foi uma tremenda luta -- a salvação do Parque Nacional de Brasília e do Jardim Botânico e, em especial, do minúsculo Olhos D’Água, dentre poucas áreas naturais a mais. De ter então lembrado isso o jardim já estaria feito.  É muito provável, ademais, que esta nota apenas reitere muitas iniciativas anteriores. Mas, como nunca é tarde para aprimorar a qualidade da vida, insistir não causa dano.

Fonte:O Eco por Marc Dourojeanni em 10-12-2017



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